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POR UMA ÚNICA PALAVRA
*Eriberto Henrique


Comecei a escrever na infância por brincadeira, ai fui crescendo e tomando gosto pela coisa. Logo me tornei um leitor compulsivo, pegando livro emprestado e lendo 2 ou 3 por semana. A leitura a observação das coisas em minha volta, me fizeram escrever ainda mais, acho que para colocar para fora tudo que sentia.

Eu sou um cara triste por natureza! Sempre fui sensível, sem habilidades motoras, um desastre em jogos eletrônicos, o cara que sentava no canto da sala, que entendia até mais do que o professor falava, mas preferia se resguardar, pois quando se expor, trazia consequências nada agradáveis. Sofri por isso! Por ser um nerd que gostava de livros e desenhos animados, por ser negro, por ser pobre, por ser feio, e por não ser aceito como era nem dentro da minha própria casa, eu era uma aberração confesso. Falava rebuscado, gostava de poemas, peteava o cabelo crespo de lado, e vestia camisa ensacada e lia livros de filosofia de 14 anos de idade. Cresci sem amigos, sem namoradas, sem um pai de verdade, e muita vezes sem o apoio moral da mãe, que não conhecia nenhum pouco o filho que tinha. E para ao menos me inserir entre os colegas de escola, tive que aprender a beber, falar palavrão, parando até de desenhar, mas não de escrever.

Quantas vezes eu chorei no canto do meu quarto, perguntando a Deus porque era assim, querendo que ele me levasse, pois não queria mais sofrer. Quantas vezes naquelas datas que todos consideram especiais, eu estava lá, sozinho, sonhando com um mundo que só existia nas minhas fantasias.

Passei a minha infância inteira e adolescência, brincando e conversando com amigos imaginários, levando surras, e voltando para casa sem contar para a mãe porque apanhei. Eu tinha que ser forte, fisicamente e mentalmente, suportar sei lá porque, pois quando olho para trás, é difícil achar momentos bons. Sei que fui feliz em alguns momentos e em algumas fases, mas sei quantas lágrimas derramei por decepção, por rejeição, e por ser quem eu era.

Os livros de poemas escritos na adolescência, eram gritos de desabafo, de libertação, de luta por um mundo melhor ou uma vida melhor, onde a vaidade não fosse importante. Os de romance, eram sonhos de viver o que nunca vivi. A literatura foi a cura para as minhas doenças, o remédio para a minha dor, seja desenhando ou escrevendo, naquele momento onde só existia eu a caneta e o papel, tudo parecia fazer sentido, inclusive cada dor sentida.
Quando entrei para o quartel, engajei porque eu era um soldado frio,  que aguentava grito sem ponderar, que aguentava a humilhação sem questionar, que era persistente, dedicado e trabalhador, e tinha plena consciência que eu não era nada, pois a vida já tinha me ensinado isso.

Quando sai do quartel foi para voltar a sonhar, para ser escritor porque achava que era a hora de buscar esse sonho. Quebrei a cara, e não tive coragem para contar a ninguém! Chorei ainda mais por dentro, com o desemprego e um universo de frustrações, minha mãe olhava para mim e chorava também, via a minha dor e rezava por mim. E entre tantas agustias, tive que vê-la partir, perdi a mulher que mais amei e que sempre vou amar minha vida inteira, justamente a mulher que mais me conhecia, mas não por completo, pois nunca conheceu o filho poeta de verdade, nunca me viu declamar um poema, ou leu um dos meus livros. E hoje, quando olho para eu meu filho, tento ser para ele tudo que não foram para mim, pai, amigo, irmão, companheiro, alguém que ele possa contar quando precisar, e que nunca deixe ele sozinho numa noite de natal. Alguém capaz de lhe cobrar quando preciso, e depois dizer eu te amo antes de dormir.

Um dia ele vai crescer, e eu vou dizer para ele, que as pessoas te machucam porque são fracas, porque são pequenas, imaturas e perdidas. As pessoas te machucam porque estão cegas, em um mundo necrosado pela desesperança, as pessoas te machucam porque sentem medo, porque são covardes, e não sabem o que fazem, como disse Jesus Cristo na cruz.

Enfim, eu que sempre defendi a literatura, que sempre lutei e busquei contra tudo e contra todos, mostrar que ela pode ser o caminho, contrariando pai e irmãs, contrariando companheiros de trabalho e colegas que conquistei nas estradas da vida. Eu fiz tudo isso porque ela, porque ela me ajudou a lutar, porque ela fez de mim o que sou, um homem que entra dentro do seu casco para se defender, mas que no fundo ainda é aquela criança que tinha medo do escuro.

E agora, olhando para minha alma tão quieta nesse momento, percebo e entendo, que muitas lutas e batalhadas são travadas, por causas que já estão perdidas.
E porque lutar então?
Talvez pelo significado de uma única palavra, “honra”.

Eriberto Henrique

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