Pular para o conteúdo principal

Ramadã e o diálogo inter-religioso necessário na formação de uma sociedade laica

 Por Francirosy Campos Barbosa, antropóloga e professora do Departamento de Psicologia da FFCLRP/USP

Foto: Arquivo Pessoal

No dia 2 de abril de 2022, isto é, no último sábado, a maioria dos muçulmanos no mundo entrou no mês do Ramadã, digo a maioria, pois há divergência com alguns países e grupos sobre o avistamento da lua nova. No entanto, no Brasil é Ramadã, e as comunidades islâmicas estão mobilizadas neste período que marca o jejum de comida, bebida e relações sexuais da alvorada ao pôr do sol durante 29 ou 30 dias (sendo o calendário islâmico lunar, a variação é sempre prevista). O mês do Ramadã foi um dos temas desenvolvidos na minha tese de doutorado – Entre arabescos, luas e tâmaras: performances islâmicas em São Paulo – defendida na USP em 2007, e do mesmo modo foi tema de documentário – Allahu Akbar – que também acompanhava a tese de doutorado e está disponível no Vimeo.

O ano de 2022 marca um período importante para os muçulmanos, pois nos últimos dois anos a comunidade muçulmana teve que fazer seu Ramadã de forma tímida, sem a presença das pessoas, com mesquitas esvaziadas, sem os costumeiros encontros para quebra de jejum (iftar) e orações de Tarawih. Se, por um lado, a pandemia de covid-19 dificultou a aproximação entre as pessoas, por outro lado, a tecnologia se colocou como grande aliada dos indivíduos que seguiram rigorosamente as políticas de distanciamento social. Como ferramenta de superação das barreiras espaciais, os aplicativos de chamadas e videochamadas tiveram grande engajamento durante o período de isolamento e seu uso foi reinventado para saciar as mais diversas necessidades, desde comunicação básica entre parentes e conhecidos às demandas do mercado e, também, das redes de cuidado da saúde mental.

Os espaços religiosos estavam nesse contexto e tiveram que se reinventar (Barbosa, 2021). O Ramadã está de volta a sua programação normal, mas manteve o uso de tecnologias de comunicação. É possível acompanhar pelo Facebook e canal do YouTube da Mesquita Brasil o início do jejum e a sua quebra via programa realizado pelo sheik Mohamed El Bukai e outros, além de páginas no Instagram dos sheiks Rodrigo Rodrigues, Sheikh Jihad Hassan Hammadeh e páginas da Associação Mundial da Juventude Islâmica (Wamy), tendo como presidente o sheik Ali Abdouni, e da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), respectivamente. Há também a presença forte de influenciadoras digitais muçulmanas, como Fabiola Oliveira, Mariam Chami, Fatuma (Fala Fatuma), entre outras, que se revezam nas redes sociais falando sobre temas variados e, neste momento, abordam o mês religioso. Este ano novamente a polêmica sobre stickers (figurinhas que homenageiam o Ramadã) no Instagram, que foram criados para relembrar a data, mas que vêm sendo usados de forma indevida, reacendeu os comentários nas postagens chamando atenção ao real significado dessas imagens. A primeira figura simboliza o início do Ramadã (ou que estamos no mês do Ramadã); a segunda, a alimentação, que marca o sohour (alimento antes do início do jejum diário e/ou quebra de jejum com tâmaras e água); a terceira, a mesquita e a celebração noturna das devoções realizadas para o encerramento do dia.

Fotomontagem com símbolos do Ramadã – Arte: Jornal da USP

 

O Ramadã é o mês do Alcorão, a centralidade está nele, que é recitado o tempo todo, pois é o mês no qual o texto sagrado foi revelado. Este ano o período se mistura com a semana da Páscoa, período em que a USP tem suas aulas de graduação suspensas, no entanto, é importante chamar atenção que alunos, docentes e funcionários da Universidade têm outras práticas religiosas e espirituais, além dos rituais judaico-cristãos como Páscoa e Natal. A vida religiosa está presente também na vida acadêmica, como objeto de pesquisa, mas também como experiência vivida por muitos. O diálogo inter-religioso considera fundamental o contato entre as formas de pensamento religioso e também com os sem religião. A universidade, sendo plural, diversa, também deve compreender que há várias formas de ser e estar em sociedade. Pensando na divulgação de uma data pouco conhecida pela comunidade acadêmica, o Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias), coordenado por mim, abriu um espaço de divulgação dessa data – compreendemos que as diversas formas de intolerância e islamofobia, pelas quais vêm passando as muçulmanas (em sua maioria mulheres que usam véu) no Brasil, são fruto do desconhecimento e de poucos trabalhos acadêmicos que abordem o tema. Sugerimos que acompanhem nossa divulgação pelo Instagram @graciasgrupo.

Neste mês em que se celebra a Páscoa, muçulmanos experimentam o jejum e renovam sua fé e a caridade. Cabe considerar que num país laico como o nosso, que permite a livre observância de suas práticas religiosas, torna-se importante falar sobre a diversidade de experiências com o sagrado. No domingo de Páscoa, muitos estão preocupados com o almoço, com o bacalhau da ceia, enquanto os muçulmanos seguem seu jejum até o horário determinado, em torno das 18h, a depender da cidade em que vive. Se a diversidade está na sociedade, está também em muitas famílias brasileiras, que congregam cristãos, umbandistas e muçulmanos na mesma casa. O diálogo e o respeito com as práticas individuais e coletivas precisam estar na pauta também de famílias religiosas e não religiosas. A pesquisa que realizamos sobre islamofobia e que neste momento está sendo finalizada aponta que há muita intolerância em relação a um familiar muçulmano.

Esperamos que neste mês as duas denominações que mais crescem no mundo, a cristã e a islâmica, possam juntas promover a paz, o respeito e a solidariedade, consubstanciando os valores que carregam e ampliando uma cosmologia que dê sentido às pessoas e que estabeleçam espaço de troca. Nos cursos em que atuo, de Psicologia e Pedagogia, promovo frequentemente debates sobre experiências religiosas e suas formas de pertencimento, inserindo desse modo questões decoloniais que promovam reflexões sobre práticas dominantes e não dominantes quando se trata da escuta terapêutica e da formação de alunos em sociedade. Como espaços terapêuticos podem possibilitar a conversa sobre religiosidade/espiritualidade? Ou então: como espaços educacionais/escolares podem promover o acolhimento de crianças de religiões diferentes da maioria?

Por fim, desejo aos docentes, alunos e funcionários: Ramadan kareem (Ramadã generoso) a todos os muçulmanos e muçulmanas; feliz Páscoa a todos os cristãos e judeus; asè a todos os candomblecistas e umbandistas; paz a todos que não têm pertencimento religioso; e a todos que possuem outras formas de religiosidade/espiritualidade, meu respeito e atenção.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ANVISA aprova medicamento inédito para tratamento da doença de Alzheimer

A Anvisa aprovou o uso do lecanemabe para o tratamento da doença de Alzheimer. O produto, inédito no país, é um anticorpo monoclonal pertencente à classe dos produtos biológicos. De acordo com o registro, o novo medicamento é indicado para pacientes adultos com diagnóstico clínico de comprometimento cognitivo leve e demência leve decorrentes da doença de Alzheimer (fase inicial), com patologia amiloide confirmada e que não sejam portadores ou sejam heterozigotos do alelo ε4 da apolipoproteína E (ApoE ε4). O medicamento deve ser administrado por infusão intravenosa, durante aproximadamente uma hora, uma vez a cada duas semanas. Com o registro, o lecanemabe está autorizado para distribuição e uso no país. O prazo para sua entrada no mercado depende do laboratório detentor do registro. O seu nome comercial é "Leqembi" e depende apenas do laboratório responsável a sua chegada ao Brasil. Segundo Elton Fernandes , advogado especialista em saúde, o preço oficial do medicamento no Br...

23º Festival PREAMP divulga os seis artistas selecionados para a Mostra Musical

Também foi divulgada a lista dos participantes para as ações formativas do Palco Escola, que serão realizadas de 27 de janeiro a 6 de fevereiro. Já a Mostra Musical acontecerá nos dias 6 e 7 de fevereiro de 2026, no Cais do Alfândega, no Bairro do Recife O 23º  Festival PREAMP  divulgou, nesta segunda-feira (5), as seis atrações pernambucanas selecionadas para a Mostra Musical: Os artistas  Islan,  O Cão ,  Dandara MC ,  Mestre Josivaldo Caboclo ,  Alice Counter  e  Rob Love , que também receberão mentorias voltadas para a profissionalização de suas carreiras musicais. Ao todo, 156 artistas e grupos de todas as regiões do Estado participaram da chamada pública realizada via edital, reafirmando o PREAMP como um espaço plural, representativo e aberto à diversidade cultural.  De acordo com o coordenador-geral do festival, Fábio Cavalcante, a Mostra Musical do PREAMP é pensada como uma plataforma de impulso real para artistas que estão no in...

Neurociência no mundo do futebol

  Quando falamos de sensores de neurociência no futebol (como os utilizados pelo Liverpool com a neuro11 ou pelo Santos e Palmeiras), não estamos a falar de ficção científica, mas de biofeedback em tempo real. Eis o passo a passo de como funciona uma sessão típica de treino cerebral para um jogador de elite: O jogador coloca uma touca ou sensores individuais de EEG (Eletroencefalograma). Estes sensores são não invasivos e extremamente leves para não atrapalhar o movimento. Estes medem ondas cerebrais (Alfa, Beta, Teta e Gama). O objetivo é identificar em que estado mental o jogador se encontra antes de bater uma falta ou um penálti. Cada jogador tem uma "assinatura" de sucesso. Os cientistas analisam os dados de quando o jogador acerta um remate perfeito. Descobrem, por exemplo, que um atleta atinge um pico de ondas Alfa (relaxamento alerta) frações de segundo antes do contacto com a bola. No Treino de Biofeedback (A Sessão em si), o jogador vai para o campo ou para um si...