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Obra de Victor Moreira é resgatada em livro assinado por Marcondes Lima



Cenógrafo de peças que marcaram época e um dos artistas pioneiros de Nova Jerusalém, Victor Moreira trabalhou como fashion designer e foi responsável por desfiles e ensaios de moda nas décadas de 50 a 70. 
Prestes a completar 84 anos – faz aniversário no próximo mês de março -, Victor Moreira vê mais um sonho se realizar. A publicação de um livro que resgata sua obra e biografia, intitulado A Arte de Victor Moreira, com assinatura do encenador e pesquisador Marcondes Lima. Incentivado pelo Funcultura, o livro é a nova publicação da Editora Cepe. O lançamento será no dia 28 de fevereiro, às 19h, no Museu do Estado de Pernambuco, no bairro das Graças.
Durante 1 ano e meio, Marcondes Lima embrenhou-se por um acervo gigantesco e labiríntico, que revelava a produção e as histórias de Victor José Fernandes Moreira, desenhista, estampador, designer de moda, figurinista, cenógrafo, correspondente internacional de moda. Só para a pesquisa do livro, foram digitalizadas mil e cinquenta imagens – das quais cerca de 250 estão no livro. São desenhos, documentos, páginas de jornais, fotografias, estudos e originais de estamparias.
Nas artes cênicas, Victor Moreira foi um dos colaboradores do Teatro Adolescente do Recife  (1955-1963), ao lado do ator e diretor Clênio Wanderley e do diretor Luiz Mendonça; responsável pela maquiagem e figurino da primeira montagem de Auto da Compadecida, em 1956 (o cenário era de Aloísio Magalhães); um dos idealizadores da cidade-teatro de Nova Jerusalém, no Agreste pernambucano, assinando cenários e  figurinos do espetáculo de 1954 a 2002 – posto que retomou em 2012 e segue até os dias de hoje em colaboração com Marina Pacheco; criador do cenário de Yerma, protagonizada e dirigida por Geninha da Rosa Borges no Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), em 1978, além de outras peças para a companhia, como Macbeth, em 1964; A Capital Federal, em 1965; Bob & Bobete, em 1997; Você pode ser um assassino, em 2000. Também criou  cenários e figurinos para Calígula, em 1979 dirigida e protagonizada por José Pimentel, em 1971.
Nascido em Olinda, Victor possui uma memória cinematográfica, reconstituindo histórias como se fossem verdadeiros roteiros de cinema. Conta que, aos três anos de idade, viu passar pela janela da casa da avó a procissão de Nosso Senhor dos Passos. “Minha avó enfeitava as janelas, como todas as senhoras de Olinda, mas não poderiam ser usadas flores, porque Jesus estava morrendo. Então se usavam placas de metais. Fiquei encantado”, relembra. Com menos de cinco anos, Victor reproduziu a procissão em desenhos feitos em papel de embrulhar pão, guardados como relíquia pelo pai.
Na família, todos queriam que ele fosse doutor. Formado em Odontologia, Victor conquistou o apoio do pai para trabalhar com estamparia na fábrica Othon Bezerra de Mello quando comprovou que ganhava mais dinheiro naquela função. “A família inteira não queria que eu fosse fazer desenho. Queria que eu fosse doutor. Mas não aguentei a odontologia. Eu nasci para desenhar, para ver moda, para charme, para elã. Adoro cristal, cheiros, gente bonita. É, sou teatral”, brinca.
Para o autor Marcondes Lima a memória de Victor Moreira permeia todo o livro. “Poderia ser um livro de 500 páginas. Conseguimos fazer 172, que deixam registradas as múltiplas facetas desse criador inquieto, curioso, workaholic. Várias outras pesquisas poderiam ser feitas a partir desse levantamento inicial”. Longe da realidade das blogueiras de moda, que hoje registram tudo ao vivo com celulares modernos, Victor viajava para salões de moda da Europa – como a semana Prêt à Porter de Versailles – onde fotografava e desenhava os looks que via na passarela para os jornais e revistas brasileiros. Foi colaborador do Jornal do Commercio (Pernambuco), do jornal O Povo (Ceará), do extinto jornal Shopping News (São Paulo), entre outros peri& oacute;dicos.
Trabalhando por mais de 20 anos no Cotonifício Othon-Riachuelo, Victor inseriu o algodão no circuito da alta costura através de suas criações e de processos como a calandragem (dar brilho ao tecido) e da técnica de redesign, a criação de um novo tecido a partir de diferentes texturas. Cada desfile era tratado como um espetáculo.  Victor fazia questão de explicar ao público o seu processo criativo. Isso acontecia por meio de desenhos feitos na hora, performances, narração em tempo real, entre outras invenções. Um de seus momentos mais memoráveis ocorreu em 1970, durante uma Feira do Comércio e Indústria do Nordeste (Fecin), no Parque da Jaqueira. O festejado estilista Dener abriu o evento desfilando sua coleção ao som de música clássica ao vivo. Victor Moreira ousou fechando o evento com o icônico desfile Tropicália, levando à passarela música de terreiro de candomblé, com ogãs e seus atabaques.
 Sem ter como mostrar seu trabalho às novas gerações, Victor Moreira temia ver sua produção ser esquecida e desaparecer. “Tenho muito medo de perder a minha memória. Sinto muito prazer na vida. Acho que a vida é linda, apesar de todos esses políticos. Ainda tem muita coisa boa para se curtir”, comenta. “Espero que o livro possa despertar curiosidade e, quem sabe, novas investidas nesse acervo tão rico”, finaliza.
Serviço
Lançamento do livro A Arte de Victor Moreira, de Marcondes Lima
Editora Cepe
Quando: 28 de fevereiro (quarta-feira), às 19h
Onde:  Museu do Estado de Pernambuco (Av. Rui Barbosa, 960 – Graças)
Projeto incentivado pelo Funcultura/Fundarpe/Sec. de Cultura/Governo de Pernambuco

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