quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Os cuidados ao emitir uma opinião

O cuidado com a universalização, o cuidado com a tentativa de tudo explicar a partir de um argumento, de um pensamento contundente; o cuidado com os exageros teóricos, o cuidado com o enquadramento de caracteres amplos e distintos sob um mesmo princípio, tudo isso exige discernimento, estudo do aluno de Filosofia. 

Miguel Torga escreveu em 1941 o que segue: 


"... a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitetaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós. Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem".

Lúcio Packter - http://www.filosofia.com.br/estudo.php

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Médico Interno - Joanna de Ângelis

Joanna de ÂngelisCrêem muitos discípulos do Espiritualismo que todas as ocorrências desagradáveis da existência terrestre resultam de punições da Divindade ou de resgates impostos pelos erros do passado, próximo ou anterior.

Certamente a crença generalizada merece reparos, por não se ajustar totalmente à linguagem dos fatos.

O conceito sobre uma Divindade punitiva e cruel encontra-se defasado diante da nova compreensão do amor, que é recurso dinâmico a viger em todo o Universo.

Jamais a Consciência Cósmica se imiscuiria mediante atos de perversidade aplicados contra as frágeis criaturas humanas, ignorantes da sua realidade e destinação, ainda atravessando as áreas primárias do seu desenvolvimento.

Deus-Amor irradia-se em energia vitalizadora e reparadora, a tudo e a todos mantendo em equilíbrio, mesmo quando, aparentemente, algumas desconexões e desarranjos parecem perturbá-lo.
O processo de evolução dá-se através do desgaste como do aprimoramento, da doença e da saúde, da queda e do soerguimento...

Da mesma forma, há ocorrências que são conseqüências da invigilância, da irresponsabilidade, do desamor de cada ser. Nem sempre, portanto, as enfermidades podem ser consideradas como processos cármicos em mecanismos de reparação.

O organismo é excelente máquina constituída por equipamentos delicados, que são comandados pelo Espírito através do cérebro.

Quando o indivíduo tem a propensão para o pessimismo, o ressentimento, o desamor, cargas deletérias são elaboradas e atiradas nos mecanismos encarregados de preservar-lhe a organização somática, produzindo-lhe inúmeros males.

Igualmente, as disposições otimistas e afetuosas produzem energias refazentes, que recuperam os desarranjos momentâneos dos complexos órgãos que constituem a maquinaria fisiológica.

O corpo humano é laboratório de gigantescas possibilidades, sempre suscetível de autodesarranjar-se ou auto-recompor-se conforme as vibrações emitidas pela mente.

A mente representa-lhe o centro de controle que envia as mensagens mais diversas para todos os pontos da sua organização.

Uma emoção qualquer ocasiona descarga de adrenalina na corrente sangüínea, produzindo sensações equivalentes ao tipo de agente desencadeador.

Assim sendo, encefalinas e endorfinas são secretadas pelo cérebro sob estímulos próprios, produzindo imediatos efeitos no aparelho físico. Enzimas outras são produzidas com cargas positivas ou negativas, conforme a ordem mental, que contribuem para a manutenção da saúde ou a piora da enfermidade.

Auto-reparador, o aparelho circulatório, de imediato à agressão, reúne a fibrina dos vasos procurando elaborar coágulos-tampões que impedem a hemorragia e preservam a vida. Também ocorre o mesmo em referência às enfermidades - o câncer, a "aids", as paralisias, as enfermidades cardíacas e outras - que sob o comando mental correto vitalizam o sistema imunológico, produzindo diversas células com poder quimioterápico mediante o qual bombardeiam as células rebeldes e doentes, destruindo-as, da mesma forma isolando as portadoras de degenerescência e favorecendo as saudáveis, assim restaurando a saúde ou facultando maior sobrevida.

Afinal, o mais importante na área da saúde não é o tempo de vida - o número de anos que se frua - mas a intensidade, o bem-estar, a alegria e os objetivos vivenciados.

A morte é inevitável e constitui bênção em relação à experiência física; no entanto, a forma como cada qual se comporta no corpo é que se torna essencial.

Há, no corpo humano, um médico às ordens da mente, que o Espírito encarnado comanda, aguardando a diretriz para agir corretamente.

Desconsiderado, deixa de atuar, superado pelos fatores destrutivos, igualmente ínsitos na organização fisiológica, prontos à desgastante tarefa da doença e da degenerescência celular.

Esse médico interior pode e deve ser orientado pelo pensamento seguro, pelas disposições do ânimo equilibrado, pela esperança de vitória, pela irrestrita fé em Deus e na oração, que estimulam todas as células para o desempenho correto da finalidade que lhes diz respeito.

Joanna de Ângelis


(Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, em 22 de março de 1995, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador-BA, conforme publicado no "Reformador" de setembro de 1995)

Foto: Sor Juana Inés de la Cruz (1648-1695), Joanna de Āngelis - pintura de Aurora Parpal

sábado, 10 de novembro de 2018

O que significa Utopia?

Thomas More deu esse nome a uma espécie de romance filosófico em 1516, no qual relatava as condições de vida numa ilha desconhecida denominada Utopia, nela teriam sido abolidas a propriedade privada e a intolerância religiosa. Depois disso, esse termo passou a designar qualquer tentativa análoga, tanto anterior quanto posterior (como a República de Platão ou a Cidade do Sol de Campanella), mas também qualquer ideal político, social ou religioso de realização difícil ou impossível

Fonte:

Zygmunt Bauman - Modernidade Líquida - Entrevista na Globo News

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Nova obra do Papa Francisco chega ao Recife

Livro "Sabedoria das Idades" terá evento dia 13/11, terça, na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) às 14 horas
A maior instituição de ensino do estado de Pernambuco receberá no dia 13/11 (terça) os convidados para o lançamento da nova obra escrita pelo Papa Francisco. Intitulado Sabedoria das Idades, o livro contará com esse encontro especial para apresentar ao público o conteúdo da obra e também um fórum sobre a questão do envelhecimento. O evento começará às 14 horas e se extende até às 17 horas do mesmo dia, e terá a presença de alguns entrevistados que tiveram suas histórias impressas na edição brasileira do livro.
Sabedoria das Idades é o resultado da inspiração do Papa Francisco em esclarecer o papel vital dos avós e de outros idosos, contando com a sabedoria transformadora que eles têm a compartilhar. Idosos de mais de 30 países dividem sua sabedoria adquirida ao longo de anos de experiência. Todas as histórias são testemunhos do poder da fé, da perseverança, da resiliência humana e do amor. A obra foi apresentada mundialmente no último dia 23 de outubro, e Sua Santidade confere ao leitor um toque especial de fé, trabalho e esperança com suas sábias palavras de amor e paz, tão necessárias na atualidade.
Serviço do evento
Lançamento do livro Sabedoria das Idades em Recife
Data: 13/11 – Terça-feira
Horário: das 14 às 17 horas
Local: Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) - Auditório G1
Endereço: Rua do Principe, 526 - Boa Vista - Recife, PE
Personalidades presentes: Reitor Padre Pedro Rubens, Prof. José Artur de Brito, Padre Antônio Mota, índio Pankararu Genésio Manoel de Oliveira (idoso com história presente na obra), cacique Pankararu George de Vasconcelos
Ficha Técnica:
Título: Sabedoria das Idades
ISBN: 9788515045488
Autor: Papa Francisco
Páginas: 192
Preço: R$ 74,00
Sinopse: Um dia, enquanto rezava, Papa Francisco foi
inspirado a esclarecer o papel vital dos avós e de outros
idosos e a sabedoria transformadora que eles têm a
compartilhar. Sabedoria das idades é o resultado
dessa inspiração. Idosos de mais de 30 países
compartilham sua sabedoria adquirida ao longo de
anos de experiência. Todas as histórias são
testemunhos do poder da fé, da perseverança,
da resiliência humana e do amor.
O livro se organiza em torno a 5 eixos temáticos,
sobre os quais os idosos tecem seus comentários
baseados em suas próprias experiências de vida:
trabalho, luta, amor, morte e esperança são os temas
abordados. O próprio Papa Francisco se inclui na
classe de idoso a transmitir sabedoria. Além de ter
solicitado pessoalmente tal livro - como desdobramento
do projeto Querido Papa Francisco, livro no qual
perguntas de crianças do mundo todo são respondidas
pelo Pontífice - que pudesse dar voz e vez ao idosos,
indicou os temas a serem abordados e apresentou
seu pensamento sobre cada um deles, ora iniciando a
reflexão, ora comentando a reflexão dos entrevistados.
A Edição Brasileira conta, ainda, com uma sessão
especialmente denominada "Caderno Brasil" em que
apresenta todos os relatos dos brasileiros entrevistados.
Ainda assim, duas brasileiras foram selecionadas pela
Equipe do Projeto Mundial, tendo sido relato de uma
delas comentado pelo próprio Papa.
Sobre o autor: Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio)
nasceu em 17 de dezembro de 1936 em Buenos Aires,
Argentina. Foi eleito papa em 13 de março de 2013.
É o primeiro papa jesuíta, o primeiro papa das Américas,
o primeiro papa do hemisfério sul e o primeiro papa
não europeu em mais de mil e duzentos anos.
Por suas palavras e orações, deixa claro seu amor
genuíno pela humanidade, sua preocupação pelos
pobres e marginalizados e seu compromisso de
construir pontes entre pessoas de crenças diferentes.

domingo, 4 de novembro de 2018

Schiller e a música

A arte dos sons jamais deixava Schiller frio: ele a rejeitava ou adorava com intensidade. O poeta romântico foi um favorito tanto dos mestres do "lied" alemão, quanto dos grandes da ópera romântica italiana.

default
Estátua de Friedrich Schiller em Berlim
Alegria, centelha divina,
filha do Eliseu!
Ébrios de fogo, ó Celestial,
adentramos teu santuário!
Com essas palavras da Ode à Alegria, aqui em tradução livre, inicia-se o famosíssimo coro final da 9ª sinfonia de Ludwig van Beethoven. Uma obra de história ambivalente: assim como Adolf Hitler a fazia executar em seus aniversários, foi com a Ode que Leonard Bernstein comemorou a queda do Muro de Berlim, em 10 de novembro de 1989:
Recebei um abraço, ó milhões,
este beijo vai para todo o mundo!
O poema de 1785 é talvez o mais famoso, porém apenas um dos inúmeros exemplos da profunda e intensa relação de Friedrich Schiller (1759–1805) com a música. Para o poeta nascido em Marbach, essa arte era um assunto de enorme seriedade, indo muito além da mera diversão ou de uma brincadeira com sons.
Arrebatamento, não cócegas
Em seu ensaio Sobre o patético, Schiller revela o que espera da música: que arrebate o ouvinte, que não lhe faça apenas "agradáveis cócegas". Por outro lado, esse arrebatamento deve obedecer a regras: "A música dos inovadores também parece apoiar-se apenas na sensualidade. Uma expressão de sensualidade chegando às raias do animalesco costuma revelar-se em todos os rostos, os olhos ébrios se embaçam, a boca aberta é desejo puro, um tremor voluptuoso toma os corpos. Afirmo que o gosto nobre e masculino exclui todas essas sensações da arte".
Tamanho engajamento explica a paixão de suas opiniões sobre determinadas obras e personagens da cena musical. O compositor e musicólogo Johann Friedrich Reichardt (1752–1814), Schiller desprezava, taxando-o de "gajo insuportavelmente intrometido e impertinente" e "inseto": "Realmente, deveríamos caçá-lo até a morte, senão ele não nos deixa em paz". Porém nem toda essa ojeriza pôde anular a admiração de Reichardt pelo poeta, ou impedi-lo de compor várias canções baseadas em textos schillerianos.
Certa vez, o representante do Sturm und Drang caracterizou uma apresentação do oratório A Criação, de Joseph Haydn, como "miscelânea sem caráter". Por outro lado, a ópera Ifigênia em Táuris, de Christoph Willibald Gluck, representou para Schiller um "prazer sem fim" e um paradigma do Classicismo musical. Em 1800, escreveria ao colega Johann Wolfgang Goethe: "Essa música é tão celestial que, mesmo no ensaio, entre as piadas e distrações dos cantores, ela me comove até as lágrimas".
Assassinato com acompanhamento musical
Wilhelm Tell
Ensaio de 'Guilherme Tell' no Nationaltheater de Weimar
Embora jamais se haja arriscado no campo dos libretos para ópera, a concepção teatral de Schiller é freqüentemente operística. Em 1797, em outra carta a Goethe, confessa: "Sempre tive uma certa confiança na ópera, que a tragédia se libertaria dela numa forma mais nobre, como dos coros do antigo festejo báquico".
Por exemplo, a primeira cena de Guilherme Tell abunda em rubricas musicais sugestivas: ainda com a cortina fechada, a público ouve uma melodia folclórica suíça e o "badalar harmonioso de sinos de gado", que se prolonga então pela cena adentro.
Sobe o pano e, ainda antecedendo o texto dramático propriamente dito, um aprendiz de pescador "canta da canoa", um pastor responde da montanha com uma canção, até que um caçador alpino finaliza a introdução musical, entoando duas estrofes. Schiller especifica até mesmo que as canções subseqüentes devem ser variações sobre a melodia suíça ouvida no início.
Mais tarde, na cena central da peça, a terceira do quarto ato, Schiller "compõe" um momento de complexa ironia dramático-musical, digna de um Puccini. Durante o conflito com Gessler, um cortejo nupcial se aproxima, por trás do palco: a alegria despreocupada oferece um contraponto eficiente para a crescente tensão no primeiro plano. A entrada do cortejo coincide com a flechada fatal de Tell: o tirano sangra até a morte, e a música alegre continua até que um dos homens de Gessler diz:
Está louco este povo, que acompanha o assassinato com música? Fazei-os calar.
Lieder e ópera
Além dos já mencionados Beethoven e Reichardt, praticamente nenhum dos grandes compositores românticos deixou de recorrer às palavras, idéias ou tramas teatrais de Schiller, como fonte de inspiração musical. Cite-se aqui apenas os lieder de Franz Schubert, Robert Schumann e Felix Mendelssohn ou o 12º poema sinfônico de Franz Liszt, baseado na poesia Os ideais.
A representação emocional de destinos humanos, plena de episódios dramáticos, tornou Schiller um favorito dos libretistas e compositores italianos. Entre 1813 e 1876 nada menos do que 19 de suas obras subiram aos palcos da Itália, transformadas em ópera.
Maria Stuart
Montagem teatral de 'Maria Stuart', direção Andrea Breth
Fugindo com a música
Schiller e a música: uma relação tumultuada e apaixonada. Para terminar, um episódio interessante de sua biografia, com significado quase alegórico: em setembro de 1782, Schiller foi obrigado a fugir da guarnição militar de Stuttgart, onde atuava como médico, escapando à perseguição pelo duque Carlos Eugênio.
Não só as práticas literárias eram proibidas entre militares, como alguns meses antes o duque punira o poeta com prisão, por este haver se afastado sem sua permissão, a fim de assistir em Mannheim uma récita de Os bandoleiros. Significativamente, Schiller escolheu como companheiro de fuga ninguém outro do que Andreas Streicher: seu grande amigo e... músico.
Talvez em parte devido à má qualidade das adaptações – superficiais e simplificadoras – a maioria dessas obras desapareceu completamente do repertório. Dentre as que sobreviveram temos a Maria Stuart de Gaetano Donizetti e o Guilherme Tell de Gioacchino Rossini. E, sobretudo, os quatro dramas de Giuseppe Verdi: Joana d'Arc, I masnadieri (baseada em Os bandoleiros), Luisa Miller ( Cabala e amor) e Dom Carlos. Delas, apenas esta última preserva em seu libreto algo da qualidade e dimensão poético-teatral do original.

sábado, 3 de novembro de 2018

Existe o destino? Somos levados pelo acaso? Ou construímos nossa destinação?

A Dialética da Liberdade

http://www.econtalk.org/david-boaz-p-j-orourke-and-george-will-on-the-state-of-liberty/

Recebemos através do Twitter o seguinte questionamento do internauta Bruce Casa Nova:

Querido, Marcelo, boa noite! Um forte abraço! Você acredita em destino? Acha que nós o construimos ou existe o acaso, o que já está destinado para nós?

É uma das indagações mais antigas da humanidade. Já somos destinados para algo? Somos levados pelo acaso, sem termos poder de escolha? Construimos nossa destinação?

O assunto nos sugere uma pesquisa sobre os filósofos que se debruçaram sobre o assunto e ao final, o pensamento que mais se assemelha o nosso.

No século I a.C. o filósofo Cícero nega totalmente o acaso e a fatalidade e enfatiza o livre-arbítrio do homem. Em sua obra Sobre a Adivinhação afirma: "não haver a ciência do futuro, e sustentar com todas as forças não existir, em absoluto, nem em Deus nem no homem, e não haver predição de coisas.

João Calvino, téologo francês que junto com o pastor suiço Guillherme Farel implementaram a Reforma Protestante na Suiça a partir de 1536. Para Calvino, os homens eram predestinados. Na sua visão, Deus tem um propósito particular para cada ser de Sua criação. Embora os homens estivessem predestinados à vida eterna ou à condenação, não sabiam de antemão seu destino.

Há um determinismo na Filosofia Budista pois seus fundamentos confiam ao ser humano as etapas para a iluminação. As suas ações influenciarão seu futuro. Obviamente que o seu livre-arbítrio deve ser utilizado para a preparação em um amanhã melhor. Se o amanhã pode ser melhor de acordo com os seus atos de hoje, é natural que haja uma necessidade no futuro de colhê-los. Todo o sofrimento que passamos hodiernamente, trata-se de erros cometidos no passado por nós mesmos.

Segundo o determinismo científico, tudo que existe tem uma causa. O mundo explicado pelo princípio do determinismo é o mundo da necessidade e não o da liberdade. Necessário significa aquilo que tem de ser e não pode deixar de ser. Nesse sentido, necessidade é o oposto de contingência, que significa o que pode ser de um jeito ou de outro.

Naturalmente que outros enfatizam a liberdade humana absoluta. Compreendendo que todos temos a escolha de de cidir e agir como se quer.

Aristóteles por exemplo, enaltece o "princípio de si mesmo" como o ato voluntário. Em "Ética a Nicômaco", afirma que tanto a virtude como o vício dependem da vontade do indivíduo.

Há uma refutação de Hannah Arendt em relação ao estagirita, em que ela ressalta que a liberdade naquele período da história estava restrita ao campo político. Mulheres, crianças, escravos e metecos não possuíam a mesma liberdade.

Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino utilizam o conceito de livre-arbítrio como faculdade da razão e da vontade para escolher um caminho. O bem ou o mal.

René Descartes também se debruça sobre o assunto e e defende que o ser humano deva sempre dominar a si mesmo. Mesmo que as paixões sejam boas em si, cabe à razão averiguar de que forma utlizá-las.

Em meados do século XX, Jean-Paul Sartre em sua filosofia existencialista afirma que o ser está irremediavelmente "condenado a ser livre". Tanto que um de seus principais pensamentos é "A existência precede a essência". O homem vive e vai construindo a sua própria identidade.

Pesquisando no Espiritismo, bússola de luz para todos nós, encontramos algumas explicações bem satisfatórias para a nossa humilde compreesão de vida.

Na obra "A Caminho da Luz", psicografada por Chico Xavier através do Espírito Emanuel, encontramos a seguinte afirmação:

- O determinismo do amor e do bem é a lei de todo o Universo e a alma humana emerge de todas as catástrofes em busca de uma vida melhor. 

A frase é muito clara. Existe um determinismo. Para o amor e o bem. Entendemos que, apesar de utilizarmos o livre-arbítrio em nossas vidas, em um dado momento não termos como fugir de nossa destinação. Naturalmente, em nosso plano ainda existe o mal. E somos responsáveis por nossos atos.
As vidas sucessivas terão um papel essencial na explicação do resgate desse mal.

O filósofo espírita José Herculano Pires entende que há uma dialética da liberdade. Há um determinismo subjetivo, que é a vontade do homem e um determinismo objetivo, que é o das condições de sua própria existência. Da oposição constante dessas duas vontades, resulta a liberdade-relativa da sua possibilidade e ação.

Na questão 844 de "O Livro dos Espíritos" encontramos a seguinte explanação:

- O homem tem liberdade de ação a partir do momento que tem a vontade de fazê-lo. No início da vida, a liberdade é quase nula; ela se desenvolve e muda de objeto com o desenvolvimento das faculdades. A criança, por ter pensamentos relacionados com as necessidades de sua idade, aplica seu livre-arbítrio às coisas que lhe são necessárias.

Em nosso entendimento, devemos utilizar o livre-arbítrio como instrumento para nossa evolução. Quanto maior a nossa consciência, menos o determinismo nos cerceará os movimentos. Pois o estaremos aceitando de braços abertos. Para nossa liberdade maior mais adiante.

Fontes:

Revista das Religiões - Edição 5 - Janeiro 2004 - Por Estela Silva.
Filosofando : introdução à filosofia/ Maria Lúcia de Arruda Aranha, Maria Helena Pires Martins. - 3. ed. revista. São Paulo - SP. Moderna, 2003.
A CAMINHO DA LUZ História da civilização à Luz do Espiritismo. Ditada pelo Espírito: Emmanuel. Psicografada por: Francisco Cândido Xavier Publicação original em 1939 pela: Editora FEB Federação Espírita Brasileira www.febnet.org.br . Versão digital atualizada em setembro, 2016
O Livro dos Espíritos/Allan Kardec. Tradução Matheus R. de Camargo. Capivari-SP. Editora EME, 7ª edição, agosto/2006.
http://www.cacp.org.br/a-genese-da-predestinacao-na-historia-da-teologia/
http://www.universocatolico.com.br/index.php?/a-doutrina-da-predestinacao.html




domingo, 21 de outubro de 2018

Voltaire e o seu "Tratado sobre a Tolerância"


Em 9 de março de 1762, o protestante francês Jean Calas, é vítima de uma das maiores injustiças cometidas por questões religiosas. Acusado de ter assassinado o próprio filho, Marc-Antoine, que por não conseguir trabalho no comércio, nem ser aceito como advogado porque exigiam certificados de catolicidade que ele não pôde obter, suicidou-se.
O caso é muito controverso. Jean Calas, 68 anos à época, negociante em Toulouse, na França. Era protestante, como também toda a sua família. Com exceção de Marc, que havia abjurado a heresia e recebia uma pequena pensão do pai. Vivia em casa com toda a família. Um certo dia, é encontrado sem vida, no térreo da residência. Junto à loja, enforcado numa porta. Não havia no corpo nenhum ferimento, nenhum machucado.
Os pais e os irmãos se desesperaram com a cena. Seus gritos foram ouvidos pelos vizinhos que logo se acercaram para se inteirarem da situação. Logo, algum fanático da população gritou que Jean Calas havia enforcado seu próprio filho Marc-Antoine. Esse grito, repetido, logo se tornou unânime. Momentos depois, ninguém duvidava: toda a cidade foi persuadida de que é um imperativo religioso entre os protestantes que um pai e uma mãe devem assassinar seu filho tão logo ele queira converter-se.


O filósofo Voltaire (François-Marie Arouet) escreveu a obra “Tratado sobre a tolerância”, em que disseca todo o caso, e mergulha no assunto de forma mais aprofundada. Com uma abundância de argumentos, o pensador realiza uma verdadeira sabatina sobre tolerância aos poderosos da época. O pensador faz a seguinte explanação no capítulo VI:

O direito natural é aquele que a natureza indica a todos os homens. Educastes vosso filho, ele vos deve respeito como a seu pai, reconhecimento como a seu benfeitor. Tendes direito aos frutos da terra que cultivastes com vossas mãos. Fizestes e recebestes uma promessa, ela deve ser cumprida. Em todos os casos, o direito humano só pode se fundar nesse direito de natureza; e o grande princípio, o princípio universal de ambos, é em toda a terra: “Não faz o que não gostarias que te fizessem”. Ora, não se percebe como, de acordo com esse princípio, um homem poderia dizer a outro: “Acredita no que eu acredito e no que não podes acreditar, ou morrerás”.É o que dizem em Portugal, na Espanha, em Goa. 

Atualmente limitam-se a dizer, em alguns países: “Crê, ou te abomino; crê, ou te farei todo o mal que puder; monstro, não tens minha religião, logo não tens religião alguma: cumpre que sejas odiado por teus vizinhos, tua cidade, tu província”.Se fosse de direito humano conduzir-se dessa forma, caberia então que o japonês detestasse o chinês, o qual execraria o siamês; este perseguiria os gancares, que cairiam sobre os habitantes do Indo; o mongol arrancaria o coração do primeiro malabar que encontrasse; o malabar poderia degolar o persa, que poderia massacrar o turco – e todos juntos se lançariam sobre os cristãos, que por muito tempo devoraram-se uns aos outros. O direito da intolerância é, pois, absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos por parágrafos. 4 ( VOLTAIRE, 1763)

            Imaginemos, se todas as sociedades de todas as épocas utilizassem esse princípio universal citado por Voltaire, “Não faz o que não gostarias que te fizessem”. Nenhum indivíduo agrediria o outro, pois até mesmo antes de chegar às vias de fato, ele lembraria do princípio e não levava a ofensa adiante. Ele mesmo e os seus seriam beneficiados em outra ocasião.
É no Capítulo XXII de “Tratado Sobre a Tolerância”, que o filósofo deixa registrado um de seus mais belos pensamentos; a Oração a Deus:

“Não é mais aos homens que me dirijo, é a ti. Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos. Se é permitido a frágeis criaturas perdidas na imensidão e imperceptíveis ao resto do universo, ousar te pedir alguma coisa, a ti que tudo criaste, a ti cujos decretos são imutáveis e eternos, digna-te olhar com piedade os erros decorrentes de nossa natureza. Que esses erros não venham a ser nossas calamidades. Não nos deste um coração para nos odiarmos e mãos para nos matarmos. Faz com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida difícil e passageira; que as pequenas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos diminutos, entre nossas linguagens insuficientes, entre nossos costumes ridículos, entre nossas leis imperfeitas, entre nossas opiniões insensatas, entre nossas condições tão desproporcionadas a nossos olhos e tão iguais diante de ti; que todas essas pequenas nuances que distinguem os átomos dos chamados homens que não sejam sinais de ódio e de perseguição; que os que acendem velas em pleno meio-dia para te celebrar suportem os que se contentam com a luz de teu sol; que os que cobrem suas vestes com linho branco para dizer que devemos te amar não detestem os que dizem a mesma coisa sob um manto de lã negra; que seja igual te adorar num jargão formado de uma antiga língua, ou num jargão mais novo; que aqueles cuja roupa é tingida de vermelho ou de violeta, que dominam sobre uma pequena porção de um montículo da lama deste mundo e que possuem alguns fragmentos arredondados de certo metal usufruam sem orgulho o que chamam de grandeza e riqueza, e que os outros não os invejem, pois sabes que não há nessas vaidades nem o que invejar, nem do que se orgulhar. Possam todos os homens lembrar-se de que são irmãos! Que abominem a tirania exercida sobre as almas, assim como execram o banditismo que toma pela força o fruto do trabalho e da indústria pacífica! Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos odiemos, não nos dilaceremos uns aos outros em tempos de paz e empreguemos o instante de nossa existência para abençoar igualmente em mil línguas diversas, do Sião à Califórnia, tua bondade que nos deu esse instante”.4( VOLTAIRE, 1763)

            O pensador assume de forma muito humilde, a nossa condição de criados, e eleva o pensamento ao alto, solicitando ao criador a tolerância, que por muitas vezes deixamos ao lado. Mesmo que declarando-se portador de benesses divinas. Coloca-nos em nossa posição de igualdade perante todos e chama-nos a atenção para esquecermos a tirania de que utilizamos para condenar semelhantes.

            O “Tratado sobre a Tolerância” de Voltaire, vai inspirar mais a diante a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de 1789, na França. Três artigos nesse documento serão essenciais para a garantia da liberdade religiosa.

Art. 4.º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei.

Art. 10.º Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.
Art. 11.º A livre comunicação das ideias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei.5 ( VOLTAIRE, 1763)

A “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” por sua vez, servirão como base junto com outros documentos de outros pensadores e outras nações para a histórica “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, instituída mundialmente a partir de 10 de dezembro de 1948.



sábado, 20 de outubro de 2018

Onde fica a alma em nosso corpo?


Nos últimos dias, resolvemos interagir com alguns internautas através da rede social “Twitter” e solicitamos alguns questionamentos em relação a assuntos ligados às religiões. Felizmente obtivemos algumas participações bem legais. O que nos deu um grande prazer em pesquisar nos mais variados autores da filosofia e da teologia para satisfazer seus anseios existenciais.

Podemos afirmar que no campo da “Filosofia da Religião”, as nossas principais ferramentas são a metodologia histórico-comparativa, a filologia e a antropologia. A importância está justamente em transcender aquilo que é doutrinal. Obviamente que, além de citarmos pensadores de diversos matizes, proporcionando a liberdade e a possibilidade de  emitiremos também nossa opinião realizando uma síntese das teses apresentadas.

A jovem Malu nos fez a seguinte pergunta: “Onde fica a alma”?

https://www.the-soul-purpose.com/energy-healingsoul-counseling.html

É um questionamento muito interessante, pois durante muito tempo o homem da terra fala em alma e não investiga de forma incisiva esse tema.

No século VI a.C. Pitágoras já se referia à Transmigração das almas. Que seria a possibilidade da mesma alma habitar um corpo humano e depois um corpo animal. O que mais adiante o Espiritismo viria rechaçar.

Mais adiante, no século V a.C. Empédocles afirmava que a alma vivia através de diversas reencarnações. Para ele, as más condutas eram castigadas com encarnações posteriores.

Filolau de Crotona ensina que a alma está aprisionada no corpo pela divindade.

Platão através de Sócrates ensina que a alma está entrelaçada à teoria das ideias. A alma é movida por si mesma e move o corpo. Um corpo para ser considerado vivo, deve ser movido pela alma. Esta é a verdadeira essência do ser humano, e sem ela não existe vida. Ele divide a alma em três partes:
Racional – Capaz de conhecer a verdade e alcançar as essências no mundo inteligível. Localizada na cabeça.
Irascível – Responsável pela defesa do indivíduo, que deveria manter a coragem, mas também moderar a agressividade. Localizada à altura do peito.
Apetitiva ou Concupiscível – Sede dos desejos, capazes de promover a sobrevivência do corpo, mas que deveriam ser atendidos com moderação. Localizada à altura do estômago.

O filósofo Aristóteles entende que a alma não é material, mas também não é um ser do mundo ideal. Ele a considera como sendo princípio formalmente vital. Divide a alma em duas partes. Uma racional e outra irracional. A primeira concebe princípios de razão, a segunda é privada de razão.

O pensador divide a parte racional em duas. A científica ou contemplativa e a calculativa. Esta opera o contingente. Aquilo que pode ser de outra maneira. A prudência, a sabedoria prática ou discernimento. Ele denomina phronesis. Aquela permite contemplar as coisas invariáveis, aquelas que não podem ser de outro modo. É a sophia, ou sabedoria.

O estagirita ainda divide a irracional também em duas. A irracional vegetativa, que é responsável pela alimentação e crescimento. A irracional apetitiva, aquela que deseja. Embora irracional por si mesma, relaciona-se com a parte racional.

No século III, Plotino entende que a alma é uma emanação da Alma Universal, que por sua vez, provém do Noûs, do Uno, enquanto pensa e quer por si mesmo.

No século XIV, o monge franciscano Guilherme de Ockham, propaga que, pelo fato da alma e Deus não serem sensíveis, não são cognoscíveis. Não se pode provar a alma, e é impossível demonstrar cientificamente a imortalidade. Essa linha de pensamento deu origem ao Empirismo e ficou conhecida como experimentalismo inglês.

Outro filósofo importante a abordar o tema é René Descartes. Já no século XII afirma que é preciso distinguir no homem duas substâncias: o corpo (res extensa) e o eu pensante (res cogitans).

Encontramos a resposta mais satisfatória em “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec. Na questão 146, o codificador indaga: A alma tem uma sede determinada e circunscrita no corpo?
Os Espíritos respondem:
Não, mas se encontra mais particularmente na cabeça dos grandes gênios e de todos os que pensam muito, e no coração daqueles que têm grande sensibilidade e que dedicam suas ações à humanidade.

É importante ressaltar que na questão 93 da mesma obra, os benfeitores da humanidade comentam que o Espírito é envolto por uma substância que, para ti (humano), é vaporosa, mas ainda bastante grosseira para nós (Espíritos).

Por ser imaterial (do nosso ponto de vista) a alma se irradia por todo o corpo e até além dele, através do Perispírito.


Fontes:
Filosofia da Religião/Adriano Antônio Faria. Curitiba: Intersaberes, 2017.
Ética antiga e medieval/Reginaldo Polesi. - Curitiba: Intersaberes, 2014.
Filosofia: ensino médio/Alexandre Martins; reformulação dos originais de: Michele Czaikoski Silva; DKO Estúdio. Curitiba : : Positivo, 2016. 
Os caminhos da reflexão metafísica: fundamentação e crítica/Mauro Cardoso Simões. Curitiba: Intersaberes, 2015. 
Kardec, Allan (1804/1869). O Livro dos Espíritos/Allan Kardec. Tradução Matheus R. de Camargo. Capivari-SP: Editora EME, 7ª edição, agosto/2006 - formato 15,5x21,5 cm.

Baruch de Spinoza e a intolerância


Outro filósofo da modernidade que despertou sua atenção para a tolerância ou a falta dela, foi o holandês Baruch de Espinosa (1632-1677). Sentiu na própria pele, a dor da intolerância. Enfrentou injustiças, as mais variadas e escreveu sobre o assunto.



A filósofa Marilena Chauí registra em seu livro “Espinosa, uma filosofia da liberdade”, o seguinte pensamento do autor:
                              
"Haverá algo mais pernicioso, repito, do que considerar inimigos e condenar a morte homens que não praticaram outro crime ou ação criticável senão o pensarem Iivremente, e fazer assim do cadafalso, que é o terror dos delinquentes, um palco belíssimo em que se exibe, para vergonha do soberano, o mais sublime exemplo de tolerância e de virtude? Porque os que sabem que são honestos não tern, como os criminosos, medo de morrer nem imploram clemência; na medida em que não os angustia o remorso de qualquer feito vergonhoso, pelo contrário, o que fizeram era honesto, recusam-se a considerar castigo o morrer por uma causa justa e tern por uma gloria o dar a vida pela liberdade. Que exemplo poderá então ter ficado da morte de pessoas assim, cujo ideal é incompreendido pelos fracos e moralmente impotentes, odiado pelos revoltosos e amado pelos homens de bem? Ninguém, certamente, aí colhe exemplo algum, a não ser para os imitar ou, pelo menos,  admirar." (CHAUÍ, 2001)

Espinosa critica além da própria injustiça, o fato do condenado ser mensurado por baixo. Ser colocado no mesmo nível dos demais infratores, desonestos e criminosos. É irracional, ser vítima de crimes os mais diversos, desde as perseguições até mesmo a morte, o fato de tão somente pensar diferente e de uma maneira a não prejudicar a quem quer que seja. Tão somente por defender a sua fé.

Os cuidados ao emitir uma opinião