sexta-feira, 3 de maio de 2019

Jan Huss, pequena história de um grande um reformista

Enrique Eliseo Baldovino henriquedefoz@uol.com.br No dia 6 de julho de 1415 foi queimado vivo, em Constança (Germânia, futura Alemanha), o mártir Jan Huss, célebre pensador, sacerdote e reformador tcheco, nascido no ano de 1369,1 em Husinec ou Hussinecz, reino da Boêmia (hoje República Tcheca), reino que, à época, formava parte do Sacro Império Romano-Germânico. O precursor da Reforma nasceu sob o reinado do imperador Carlos IV e sob o pontificado de Gregório XI, alguns anos antes do grande cisma do Ocidente, que se pode encarar como uma das sementes do hussitismo. Segundo o costume da Idade Média, Jan Huss, foi assim chamado porque nasceu em Hussinecz, pequeno burgo situado ao sul da Boêmia, no distrito de Prachen, nas fronteiras da Baviera. Filho de pais camponeses, Jan Huss completou o seu curso na Universidade de Praga, onde se formou em Teologia (1394), em Artes (1396) e em Filosofia (1396), fazendo-se bastante conceituado nos meios universitários. Como escritor, deu também sua grande contruibuição na fixação da ortografia e na reforma da língua literária tcheca. Alguns livros de sua autoria, que sobreviveram até os nossos dias, nos idiomas latim, francês, tcheco e inglês são, entre outros: Questio de indulgentiis (1412), Explication de la foi (1412), De ecclesia (1413), Explication des saints évangiles (1413), Ortografie Česká (1857), The letters of John Hus (1904) etc. Seguidor do reformador John Wycliffe, Huss foi ordenado sacerdote em 1400 e, no ano seguinte, ocupou o cargo de reitor da Universidade de Praga, quando se aproximou da obra do reformador inglês John Wycliffe (c.1328-1384), passando a considerar-se teologicamente seu discípulo, juntamente com Jerônimo de Praga (1379-1416), seguidor de Huss. Em 1401, tornou-se pregador da capela de Belém, em Praga (capital do reino da Boêmia), e tinha o apoio do arcebispo. Jan Huss foi confessor da rainha Sofia (1376-1425), esposa do rei Venceslau. Huss, como Wycliffe, não aceitava a supremacia papal, mas apenas a pessoa do Cristo – e não Pedro – como chefe e cabeça da Igreja, considerando o Evangelho “única lei”. Seu pensamento sobre a Igreja era influenciado fortemente por Agostinho e tinha, a respeito do clero e sua relação com a propriedade, pontos de vista semelhantes aos dos valdenses. (Sobre os valdenses, leia-se A caminho da luz, o item As advertências de Jesus, cap. 18, livro ditado pelo Espírito Emmanuel ao médium Chico Xavier, Editora FEB.) As críticas de Jan Huss ao clero foram aos poucos evidenciando sua simpatia para com a doutrina de Wycliffe (que traduziu a Bíblia para o seu idioma nacional, a fim de pô-la ao alcance do povo), e a oposição cresceu contra Huss, sendo ele excomungado em 1410. O resultado disso foi um grande tumulto popular em Praga, quando Huss, com o apoio do rei Venceslau (1361-1419) e do povo, foi festejado como patriota e herói nacional, por ser contrário ao tráfico das indulgências, à política guerreira do Papa e à sua infalibilidade. Novamente excomungado, teve que se afastar de Praga. A despeito das garantias de um salvo-conduto para comparecer ao Concílio de Constança (1414), foi encarcerado por vários meses numa prisão infecta, sendo condenado e queimado vivo nessa cidade, onde enfrentou a morte com grande coragem, tendo sido humilhado antes com o despojamento das vestes sacerdotais, tão logo lhe puseram na cabeça uma coroa ridícula de papel, onde escreveram a injuriosa alcunha de “heresiarca”. Huss ainda vivia quando os seus livros foram queimados, perpetrando-se um triste auto-de-fé de suas obras (em 9/10/1861 fizeram o mesmo com os livros de Kardec, no Auto-de-fé de Barcelona, mas não conseguiram queimá-lo vivo!), as quais foram publicadas, postumamente, primeiro em Nuremberg, em 1558, e séculos depois em Praga (1903-1908, Obras completas do mestre Jan Huss), em oito volumes. Naqueles tempos de grande intolerância, Jan Huss foi considerado o 1º mártir da liberdade religiosa, dezesseis anos antes que a heroína francesa Joana d’Arc (1412-1431) fosse queimada viva por essa mesma intolerância religiosa, e mais de cem anos antes que outro célebre reformador, o teólogo alemão Martinho Lutero (1483-1546), apresentasse suas 95 Teses, em 1517. Os hussitas Os seguidores de Jan Huss foram os hussitas, que tentaram impor ao país as doutrinas do reformador, combinando-as com um sentimento de forte nacionalismo tcheco, antialemão. Além da morte de Huss, que provocou ressentimentos e revoltas na Boêmia, mais dois fatores influíram na revolução que convulsionou o país: a proibição de que o povo tcheco exercesse o culto religioso, segundo suas próprias crenças e o martírio na fogueira de Jerônimo de Praga (30/5/1416), fiel discípulo de Huss. Jan Huss também é considerado um precursor da Reforma protestante. Os hussitas aliaram-se aos luteranos no século XVI. A rebelião de 1618 dos hussitas contra a dinastia dos Habsburgos católicos deu início à Guerra dos Trinta Anos, sendo a Boêmia recatolicizada depois de sua derrota (1621). Os tchecos, porém, permaneceram nacionalistas e anticlericais – o que foi decisivo na luta secular que travaram contra os Habsburgos católicos e na conquista da sua independência, em 1918. Jan Huss e Allan Kardec Segundo o distinto pesquisador espírita Canuto Abreu, a notícia de Jan Huss ter reencarnado como Allan Kardec veio em 1857, através da psicografia da médium Ermance Dufaux.2 Notemos, assim, a modéstia e a humildade de Kardec, que nunca se referiu em vida a este fato. A preciosa fonte dessa notável informação estava, em 1921, na Livraria de Leymarie, onde o Dr. Canuto a copiara. Em 1925, passou para o arquivo da Maison des Spirites, tendo sido destruída pelos alemães em 1940 durante a invasão de Paris. Sim, esta profunda revelação é digna de destaque: o ilustre codificador Allan Kardec foi a reencarnação do pregador Jan Huss, mártir da fé e reformador da língua do seu país, como lexicógrafo emérito, sendo igualmente um eminente tradutor ao idioma tcheco. O paralelo entre as duas personalidades é realmente notável. Observemos também o período exato de 500 anos entre a data de nascimento de Huss e a de desencarnação de Kardec. Como professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, o futuro Allan Kardec, além de preclaro educador, foi também tradutor de livros para diferentes idiomas, entre os quais se destaca: Les trois premiers livres de Télémaque en allemand (Paris: Bobée et Hingray Éditeurs, 1830), como oportunamente escrevemos nas páginas de Reformador.³ Como Kardec, foi o grande codificador da Doutrina dos Espíritos, que plasmou, de forma missionária, os elementos da emancipação e regeneração da humanidade. O mesmo Espírito, na sua autêntica vivência cristã em ambas as personalidades, teve grande intimidade com a mensagem de Jesus e o Novo Testamento, sendo o Espiritismo, desse modo, o Cristianismo Redivivo. Há vários séculos, portanto, que esse Espírito de escol, além de se destacar por alavancar o progresso geral da Terra, vem se doando através do martírio, no generoso auxílio a todos pela vivência das elevadas propostas filosóficas, científicas e religiosas, em nome de Jesus, abordando também, em vida, as questões ortográfico-gramaticais e o importante quesito das traduções, com a mestria que lhe é peculiar. A mensagem do Espírito Jan Huss Lemos, na Revista Espírita de setembro de 1869, o artigo Precursores do Espiritismo – Jan Huss, uma comunicação mediúnica desse Espírito elevado, datada de 14 de agosto de 1869 e ditada em Paris,4 após ter sido evocado por um dos médiuns da Société Parisienne des Études Spirites. Os continuadores de Kardec na direção da Revue Spirite registraram o seguinte, antes de transcrever a mensagem do Espírito Huss e depois de terem publicado algumas notícias biográficas dele, por ocasião das comemorações dos 500 anos de nascimento do grande reformador (1369-1869), notícias seguidas por uma instrução do Espírito Allan Kardec (três dias depois, em 17/8/1869), de relevante importância doutrinária: Evocado por um de nossos médiuns, o Espírito Jan Huss deu a seguinte comunicação, que nos apressamos em mostrar aos nossos leitores, bem como uma instrução do Sr. Allan Kardec sobre o mesmo assunto, porque nos parecem bem caracterizar a natureza do homem eminente, que se ocupou com tanto ardor, desde o século quinze, a preparar os elementos da emancipação e da regeneração filosóficos da humanidade.4 (Paris, 14 de agosto de 1869) A opinião dos homens pode dispersar-se momentaneamente, mas a justiça de Deus, eterna e imutável, sabe recompensar, quando a justiça humana castiga perdida pela iniquidade e pelo interesse pessoal. Apenas cinco séculos – um segundo na eternidade – se passaram desde o nascimento do obscuro e modesto trabalhador e já a glória humana, à qual ele não se prende mais, substituiu a sentença infamante e a morte ignominiosa, incapazes de abalar a firmeza de suas convicções.4 Como és grande, meu Deus, e como é infinita a tua sabedoria! Sob o teu sopro poderoso minha morte tornou-se um instrumento de progresso. A mão que me feriu alcançou, com o mesmo golpe, os terríveis erros seculares de que se encharcou o espírito humano. Minha voz encontrou eco nos corações indignados pela injustiça de meus algozes, e meu sangue, derramado como um orvalho benfazejo sobre um solo generoso, fecundou e desenvolveu nos espíritos adiantados de meu tempo os princípios da eterna verdade. Eles compreenderam, refletiram, analisaram, trabalharam e, sobre bases informes, rudimentares das primeiras crenças liberais, edificaram, na sucessão das eras, doutrinas filosóficas verdadeiramente generosas, profundamente religiosas e eternamente progressivas. […]4 (Grifos nossos.) E, mais adiante, o mesmo Espírito Huss continua sua profunda mensagem, fazendo um paralelo entre suas antigas crenças – que defendeu com heroísmo até sua morte na fogueira –, com as verdades novas, descobertas como Espírito imortal: Aos que me pediam uma retratação, respondi que só renunciaria às minhas crenças diante de uma doutrina mais completa, mais satisfatória, mais verdadeira. Pois bem! desde esse tempo meu Espírito se engrandeceu; encontrei algo melhor do que havia conquistado e, fiel aos meus princípios, repeli sucessivamente o que minhas antigas convicções tinham de errôneo, para acolher as verdades novas, mais largas, mais consentâneas com a ideia que eu fazia da natureza e dos atributos de Deus. Espírito, progredi no espaço; voltando à Terra, progredi também. Hoje, voltando novamente à pátria das almas, estou na fila da frente ao lado de todos os que, sob este ou aquele nome, marcham sincera e ativamente para a verdade e se dedicam, de coração e de espírito, ao desenvolvimento progressivo do espírito humano.4 Obrigado a todos os que reverenciam em minha personalidade terrestre a memória de um defensor da verdade; obrigado, sobretudo, aos que sabem que, acima do homem há o Espírito, libertado pela morte dos entraves materiais, a inteligência livre que trabalha de acordo com as inteligências exiladas, a alma que gravita incessantemente para o centro de atração de todas as criações: o infinito, Deus! Jan Huss 4 (Grifos nossos.) A mensagem do Espírito Allan Kardec Logo após a comunicação do Espírito Jan Huss, os continuadores do codificador transcreveram a mensagem do Espírito Allan Kardec,5 da qual registramos somente alguns trechos, deixando aos leitores o cuidado de a estudarem de modo mais aprofundado, ao compulsarem diretamente as páginas históricas da Revista Espírita: (Paris, 17 de agosto de 1869) […] – A tribo, ou se quiserdes, a nação, o universo avançam em idade e as balizas se multiplicam, semeando aqui e ali os princípios de verdade e de justiça que serão a partilha das gerações que chegam. Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma ideia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento. Tal foi Jan Huss e tantos outros precursores da filosofia espírita. […] Jan Huss encontrou no Espiritismo uma crença mais completa, mais satisfatória que suas doutrinas e o aceitou sem restrição. – Como ele, eu disse aos meus adversários e contraditores: “Fazei algo melhor e me reunirei a vós.”5 O progresso é a eterna lei dos mundos, mas jamais seremos ultrapassados por ele, porque, do mesmo modo que Jan Huss, sempre aceitaremos como nossos os princípios novos, lógicos e verdadeiros que cabe ao futuro nos revelar. Allan Kardec (Grifos nossos.)5 Precursor da filosofia espírita O respeito de Kardec por Huss já era grande (chegou a chamá-lo “um dos precursores da filosofia espírita”), apesar de essa admiração ser silenciosa e discreta, desde a sua encarnação como codificador, conforme podemos constatar nas páginas da Revista Espírita de dezembro de 1868, item V, intitulado Comissão Central,6 ao ser abordada a Constituição transitória do Espiritismo, quando o mestre de Lyon registrou para a posteridade: Às atribuições gerais da comissão serão anexados, como dependências locais: 1º – Uma biblioteca, onde se encontrem reunidas todas as obras que interessem ao Espiritismo e que possam ser consultadas no local, ou cedidas para leitura fora; 2º – Um museu, onde se achem colecionadas as primeiras obras de arte espírita, os trabalhos mediúnicos mais notáveis, os retratos dos adeptos a quem a causa muito deva pelo devotamento que tenham demonstrado, os dos homens a quem o Espiritismo renda homenagem, embora estranhos à Doutrina, como benfeitores da humanidade, grandes gênios missionários do progresso etc. […] 6 (Grifos dos originais.) Neste ponto Kardec coloca a seguinte Nota de sua autoria, que visa esclarecer os belos objetos de arte que já faziam parte do futuro museu do Espiritismo: O futuro museu já possui oito quadros de grande dimensão, que só esperam um local conveniente; verdadeiras obras-primas, especialmente executadas em vista do Espiritismo, por um artista de renome, que generosamente os doou à Doutrina. É a inauguração da arte espírita, por um homem que alia à fé sincera o talento dos grandes mestres. Em tempo hábil faremos a sua descrição detalhada. (Grifos nossos.) Após a desencarnação de Allan Kardec, os seus continuadores na Revue Spirite revelaram finalmente o nome desses quadros,7 bem como o do artista de renome (o Sr. Monvoisin) que os executou: Estes oito quadros compreendem: o retrato alegórico do Sr. Allan Kardec; o Retrato do autor; três cenas espíritas da vida de Joana d’Arc, assim designadas: Joana na fonte, Joana ferida e Joana sobre a sua fogueira; o Auto-de-fé de Jan Huss; um quadro simbólico das Três Revelações e a Aparição de Jesus entre os apóstolos, após sua morte corporal. […] (Destaque nosso.) Jesus, João Huss e Allan Kardec Em belíssima mensagem que se encontra em Reformador de setembro de 1978,8 o Espírito Humberto de Campos, através do mediunato de Chico Xavier, registra o momento sublime em que Jesus se dirige a Jan Huss, antes de reencarnar como Allan Kardec, numa assembleia de Espíritos elevados, no plano espiritual, planejando o século XIX sob as diretrizes do Cristo: Depois de se dirigir aos numerosos missionários da Ciência e da Filosofia, destinados à renovação do pensamento do mundo no século XIX, o Mestre aproximou-se do abnegado Jan Huss e falou, generosamente: Não serás portador de invenções novas, não te deterás no problema de comodidade material à civilização, nem receberás a mordomia do dinheiro ou da autoridade temporal, mas deponho-te nas mãos a tarefa sublime de levantar corações e consciências. A assembleia de orientadores das atividades terrestres estava comovida. E ao passo que o antigo campeão da verdade e do bem se sentia alarmado de santas emoções, Jesus continuava: […] É indispensável estabelecer providências que amparem a fé, preservando os tesouros religiosos da criatura. Confio-te a sublime tarefa de reacender as lâmpadas da esperança no coração da humanidade. O Evangelho do Amor permanece eclipsado no jogo de ambições desmedidas dos homens viciosos!… Vai, meu amigo. Abrirás novos caminhos à sagrada aspiração das almas, descerrando a pesada cortina de sombras que vem absorvendo a mente humana. Na restauração da verdade, no entanto, não esperes os louros do mundo, nem a compreensão dos teus contemporâneos. […] Ante a emoção dos trabalhadores do progresso cultural do orbe terreno, o abnegado Jan Huss recebeu a elevada missão que lhe era conferida, revelando a nobreza do servo fiel, entre júbilos de reconhecimento. Daí a algum tempo, no albor do século XIX, nascia Allan Kardec em Lyon, por trazer a divina mensagem. Espírito devotado, jamais olvidou o compromisso sublime. […] […] Ao fim da laboriosa tarefa, o trabalhador fiel triunfara. Em breve, a doutrina consoladora dos Espíritos iluminava corações e consciências, nos mais diversos pontos do globo. […] Allan Kardec não somente pregou a doutrina consoladora; viveu-a. Não foi um simples codificador de princípios, mas um fiel servidor de Jesus e dos homens. (Grifos nossos em todos os parágrafos.) Homenagem e conclusão Honra, pois, a esse Espírito de escol, seja na roupagem de Allan Kardec ou na de Jan Huss (o vocábulo Huss significa, em tcheco, pato ou ganso). Acerca deste último vulto lembramos com gratidão os 600 anos do seu martírio, em prol da Verdade, homenageando-o e recordando as palavras emocionadas do mártir ao ser queimado vivo na fogueira de Constança, o qual reencarnará como Allan Kardec, o célebre codificador da Doutrina Espírita: “Hoje assais um pato, mas dia virá em que o cisne de luz voará tão alto que vossas labaredas não mais o alcançarão”. Depois de dizer essas proféticas palavras, as chamas ardem e lhe cobrem o corpo. O valente pregador tcheco implora perdão pelo ato infame dos seus inimigos e continua orando a Deus, entregando-se a Ele de corpo e alma. Queimaram o seu corpo, mas não as suas ideias, pelas quais lutava o bom combate para reformar profundamente os maus costumes e os abusos eclesiásticos; também não conseguiram queimar o Ideal Superior que o guiou na procura e defesa da Verdade. O local da sua morte é marcado até hoje com uma pedra memorial; suas cinzas foram atiradas nas águas do rio Reno, e na praça central de Praga erigiram, em sua homenagem, uma imponente estátua, monumento impressionante que faz jus à sua Vida e Obra, a fim de perpetuar-lhe o legado e a memória através dos tempos. Ninguém mais se lembra dos seus algozes… Jan Huss vive e viverá para sempre no sentimento coletivo da humanidade, como verdadeiro símbolo do início de uma Nova Era. REFERÊNCIAS: 1 ENCICLOPÉDIA Mirador Internacional. Encyclopædia Britannica do Brasil. São Paulo e Rio de Janeiro, 1989. 20 volumes. 11.565 p., ilus. Editor: Antonio Houaiss. HUS (Jan), v. XI, p. 5.915. 2 IMBASSAHY, Carlos. A missão de Allan Kardec. 2. ed. Curitiba, PR: FEP, 1988. pt. I, cap. João Huss, p. 43. 3 BALDOVINO, Enrique Eliseo. O professor Rivail também foi tradutor. Reformador, ano 125, n. 2.139, p. 39(245)- 40(246), jun. 2007. 4 KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 12, n. 9, p. 372-374, set. 1869. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Precursores do Espiritismo – Jan Huss. 5 ____. ____. Mensagem do Espírito Allan Kardec, p. 374-375. 6 ____. ____. ano 11, n. 12, p. 525-526, dez. 1868. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Constituição Transitória do Espiritismo, it. 5; Nota de Allan Kardec, n. 56. 7 ____. ____. ano 12, n. 6, p. 250, jun. 1869. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Museu do Espiritismo. 8 XAVIER, Francisco C. Lembrando Allan Kardec. Pelo Espírito Humberto de Campos. Reformador, ano 96, n. 1.794, p. 25(293)-26(294), set. 1978.

domingo, 27 de janeiro de 2019

O que fazer com filósofos do passado que se revelaram racistas e sexistas?

Julian Baggini


Elogie Immanuel Kant e alguém pode lembrar a você que ele acreditava que “a humanidade alcança sua maior perfeição na raça dos brancos” e que “os índios amarelos possuem talento escasso”. Louve Aristóteles e você terá que explicar como é possível que um sábio genuíno possa ter pensado que “o macho é por natureza superior, e a fêmea, inferior; o homem é o governante, e a mulher, a súdita”.

Escreva um tributo a David Hume, como fiz recentemente, e será criticado por louvar alguém que escreveu em 1753-54: “Tendo a suspeitar que os negros e todas as outras espécies de homens, em geral, sejam naturalmente inferiores aos brancos”.

Parece que estamos diante de um dilema. Não podemos simplesmente descartar como insignificantes os preconceitos inaceitáveis do passado. Mas, se pensarmos que a defesa de opiniões moralmente repreensíveis desqualifica alguém de ser visto como grande pensador ou líder político, não restará praticamente ninguém da história.

O problema não desaparece se excluirmos os homens brancos do establishment. O racismo era comum no movimento sufragista feminino de ambos os lados do Atlântico.

A sufragista americana Carrie Chapman Catt disse: “A supremacia branca será fortalecida pelo sufrágio feminino, e não enfraquecida”. Emmeline Pankhurst, sua companheira britânica na luta, virou defensora acirrada do colonialismo, negando que ele fosse “algo a ser criticado ou do que se envergonhar” e insistindo que, em vez disso, “é algo grandioso sermos os herdeiros de um império como o nosso”.

Tanto o sexismo quanto a xenofobia têm sido comuns no movimento sindicalista, tudo isso em nome da defesa dos direitos dos trabalhadores —dos trabalhadores homens e não imigrantes, que fique claro.

Mas é um equívoco pensar que ideias racistas, sexistas ou intolerantes de outras maneiras automaticamente desqualifiquem uma figura histórica como objeto de admiração. Qualquer pessoa que não consiga admirar figuras assim revela uma profunda falta de entendimento sobre como nossas mentes são condicionadas socialmente, mesmo as maiores delas.

Pelo fato de o preconceito parecer tão evidentemente errado, essas pessoas não conseguem imaginar como alguém possa deixar de enxergá-lo, a não ser que seja degradado em termos morais.

A indignação dessas pessoas supõe de modo arrogante que elas próprias são tão virtuosas que jamais seriam tão imorais, mesmo quando todos a sua volta fossem incapazes de enxergar a injustiça. Já deveríamos saber que isso não é verdade.

A lição mais perturbadora do Terceiro Reich é que ele foi apoiado em grande medida por cidadãos comuns que teriam levado vidas isentas de culpa, não fosse o acaso de terem vivido naqueles tempos particularmente tóxicos.

Qualquer confiança que possamos sentir no fato de que nós não faríamos o mesmo é infundada, já que hoje temos consciência do que as pessoas na época não sabiam. Tolerar o nazismo hoje é inimaginável, porque não é preciso imaginação alguma para entender exatamente quais foram suas consequências. Por que tantas pessoas acham impossível acreditar que qualquer chamado gênio possa ter deixado de enxergar que seus preconceitos eram irracionais e imorais?

Uma razão disso é que nossa cultura parte de uma premissa equivocada e muito arraigada: que o indivíduo é um intelecto humano autônomo, independente do ambiente social. Um conhecimento mesmo superficial de psicologia, sociologia ou antropologia jogaria por terra essa ilusão cômoda.

O ideal do Iluminismo de que todos somos capazes e devemos pensar por nós mesmos não deve ser confundido com a fantasia hiper-iluminista de que todos somos capazes de pensamento independente. Nosso pensamento é moldado por nosso ambiente, de maneiras profundas das quais nós mesmos não temos consciência. Aqueles que se negam a aceitar que são tão limitados por essas forças quanto todas as outras pessoas têm delírios de grandeza intelectual.

Quando uma pessoa está arraigada em um sistema imoral, torna-se problemático atribuir responsabilidade individual. Isso é perturbador, porque todos acreditamos com firmeza na ideia de que o lócus da responsabilidade moral é o indivíduo autônomo. Se levássemos a sério o condicionamento social de crenças e práticas repulsivas, o medo é que todos seriam perdoados e que nos restaria um relativismo moral intolerável.

Mas o receio de que seríamos incapazes de condenar o que mais precisa ser condenado é infundado. A misoginia e o racismo não são menos repulsivos pelo fato de serem produtos de sociedades, tanto ou mesmo mais do que de indivíduos.

Desculpar Hume não quer dizer tolerar o racismo; desculpar Aristóteles não é desculpar o sexismo. Racismo e sexismo nunca foram aceitáveis: as pessoas apenas acreditavam, de maneira equivocada, que fossem.

Aceitar isso não significa passar por cima dos preconceitos do passado. Tomar consciência de que mesmo pensadores como Kant e Hume foram produtos de seu tempo serve para nos lembrar de que as maiores mentes também podem ficar cegas diante de erros e males, se estes forem bastante onipresentes.

Isso também deve nos levar a questionar se os preconceitos que vêm à tona em suas observações mais infames não podem estar à espreita, em segundo plano, em outras partes de seu pensamento. Boa parte da crítica feminista feita à filosofia de “homens brancos mortos” é dessa natureza, argumentando que a misoginia evidente é só a ponta de um iceberg muito mais insidioso. Em alguns casos isso pode ser verdade, mas não devemos presumir que seja. Muitos pontos cegos são locais, deixando o campo geral de visão perfeitamente claro.

A defesa da misoginia de Aristóteles apresentada por Edith Hall, estudiosa dos clássicos da literatura grega e romana, constitui um exemplo rematado de como salvar um filósofo de seu próprio pior lado.

Em lugar de julgar Aristóteles pelos critérios de hoje, Hall argumenta que um teste melhor seria indagar se os fundamentos de seu modo de pensar o levariam a ser preconceituoso hoje. Dada a abertura de Aristóteles a evidências e à experiência, não há dúvida de que, se vivesse hoje, não seria necessário persuadi-lo de que as mulheres estão em pé de igualdade com os homens.

Também Hume se rendia à experiência, de modo que, se vivesse hoje, é provável que não suspeitaria nada de negativo em relação aos povos de pele escura. Em suma, não precisamos olhar além dos fundamentos da filosofia deles para entender o que estava errado no modo como eles os aplicaram.

Uma razão pela qual podemos relutar em perdoar os pensadores do passado é o receio de que desculpar os mortos nos obrigará a desculpar os vivos. Se não pudermos criticar Hume, Kant ou Aristóteles por seus preconceitos, como podemos criticar as pessoas que estão sendo cobradas pelo movimento #MeToo por atos que cometeram em círculos sociais em que esses atos eram completamente normais? Afinal, Harvey Weinstein não seguiu tipicamente a cultura do “teste do sofá” de Hollywood?

Há, no entanto, uma diferença muito importante entre os vivos e os mortos. Os vivos podem entender como seus atos foram errados, podem reconhecer o fato e demonstrar remorso. Quando seus atos forem crimes, podem enfrentar a Justiça. Não podemos nos dar ao luxo de sermos tão compreensivos com os preconceitos do presente quanto somos com os do passado.

Para transformar a sociedade, é preciso levar as pessoas a enxergar que é possível superar os preconceitos com que foram criadas. Não somos responsáveis por criar os valores distorcidos que moldaram a nós e a nossa sociedade, mas podemos aprender a assumir a responsabilidade por como lidamos com eles de agora em diante.

Os mortos não têm essa oportunidade; logo, é inútil desperdiçar nossa indignação castigando-os. Temos razão em lamentar as iniquidades do passado, mas culpar indivíduos por coisas que fizeram em tempos menos esclarecidos, aplicando os padrões de hoje, é duro demais.




Julian Baggini, escritor e filósofo britânico, é autor de “O que os Filósofos Pensam” (ed. Ideias e Letras, 2005) e “How  the  World  Thinks: A Global History  of  Philosophy” (2018).

Texto originalmente publicado no site Aeon; tradução de Clara Allain.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Pecado da fé: ser cristão e seguir Jesus pode custar a vida nestes países

Ao menos 250 milhões de cristãos do mundo
(mais do que a população do Brasil) estão sujeitos a intimidações,
prisão e até morte por sua crença religiosa

Por Vanessa Barbosa

São Paulo – Um em cada 9 cristãos no mundo vive em países onde a prática da sua 
religião é proibida e perseguida. Só no ano passado, ao menos 4 mil seguidores do 
cristianismo foram mortos por motivos relacionados à fé, 5,6 mil foram detidos sem 
julgamento e sentenciados, e mais de 1,2 mil igrejas ou centros cristãos foram depredados.

Os dados alarmantes são do relatório compilado anualmente pela organização 
Open Doors USA, considerada uma autoridade no estudo de perseguição religiosa a cristãos.
Perseguição, segundo a ONG, é definida como “qualquer hostilidade experimentada como 
resultado da identificação de alguém com a religião“, o que pode incluir atitudes, palavras 
e ações hostis.

Segundo o relatório, ao menos 250 milhões de cristãos do mundo (mais do que a população
do Brasil) estão sujeitos a intimidações, prisão e até mesmo morte por sua crença religiosa.

O estudo avalia tanto o nível de perseguição institucionalizada e perpetrada por governos, 
quanto perseguições sociais e até mesmo familiares, listando os países onde os cristãos 
são mais severamente oprimidos.


Pelo décimo oitavo ano consecutivo, a Coreia do Norte lidera o ranking, seguida de países 
onde o extremismo islâmico é o principal e dominante motor da perseguição (caso de 7 dos
10 países mais opressores).

1. Coreia do Norte

População total no país: 25.611.000
Número de cristãos: 300.000
Principal crença: Ateísmo

O regime ditatorial norte-coreano é o principal opressor do cristianismo. No país que idolatra 
líderes supremos da família Kim, os cristãos são vistos como elementos hostis na sociedade 
e, por isso, devem ser erradicados.

Segundo o relatório, devido à constante doutrinação que permeia todo o país, vizinhos e até 
membros da família são vigilantes e denunciam qualquer atividade religiosa suspeita para as autoridades.

Havia esperança de que novos esforços diplomáticos em 2018 (incluindo as Olimpíadas de 
Inverno) levariam a uma diminuição da pressão e da violência contra os cristãos, mas não 
foi o caso.

2. Afeganistão
População: 36.373.000
Número de cristãos: indefinido
Principal crença: Islamismo

O Afeganistão declarou o Islamismo a religião de Estado em sua constituição. Por ser um 
estado islâmico por lei, funcionários do governo e cidadãos são hostis aos adeptos de 
qualquer outra religião. Os cristãos que vivem lá são incapazes de expressar sua fé,  
mesmo em particular, pois converter-se a uma fé fora do Islã é visto como uma traição 
à família, tribo e país.

3. Somália
População: 15.182.000
Número de cristãos: indefinido (da ordem de centenas)
Principal crença: Islamismo

Assim como no Afeganistão, o islamismo é a religião do estado na Somália. Mesquitas, 
madrasas (casas de estudos islâmicos) e representantes do grupo fundamentalista islâmico 
Al Shabab já declararam publicamente que não há espaço para os cristãos no país. 
Os crentes que deixaram o islamismo para seguir Jesus são frequentemente mortos quando descobertos.

4. Líbia
População: 6.471.000
Número de cristãos: 37.900
Principal crença: Islamismo

Após a derrocada do ex-ditador Muammar Gaddafi, a Líbia mergulhou no caos e na anarquia,
situação que permitiu que vários grupos militantes islâmicos controlassem partes do país. 
A ausência de um único governo central para impor a lei e a ordem  tornou precária a 
situação dos cristãos, que enfrentam abuso e violência por sua crença, principalmente por 
parte de grupos militantes islâmicos e criminosos organizados.

5. Paquistão
População: 200.814.000
Número de cristãos: 3.981.000
Principal crença: Islamismo

Igrejas históricas tradicionais têm relativa liberdade para adoração e outras atividades, no 
entanto, os cristãos são fortemente monitorados e não raro são alvo de ataques a bomba 
mortais. Grande parte da perseguição cristã no Paquistão vem dos grupos islâmicos radicais 
que florescem sob o favorecimento de partidos políticos, do exército e do governo. Os 
seguidores de Jesus também vivem com medo diário de serem acusados ​​de blasfêmia 
– o que pode levar à pena de morte no país.

6. Sudão
População: 41.512.000
Número de cristãos: 1.910.000
Principal crença: Islamismo

Desde 1989, o Sudão é governado pelo ditador Omar Hassan Ahmad al–Bashir, que
instaurou um Estado islâmico com direitos limitados para as minorias religiosas. Os cristãos 
enfrentam discriminação e pressão constantes, com várias igrejas demolidas. Cristãos 
convertidos com antecedentes muçulmanos estão particularmente em risco porque a 
conversão do Islã para outra religião é legalmente punível com a morte.

7. Eritreia
População: 5.188.000
Número de cristãos: 2.474.000
Principal crença: Cristianismo / Islamismo

Desde 1993, o presidente Afwerki tem perpetrado um regime brutal autoritário que repousa 
sobre violações maciças dos direitos humanos. Durante o período de estudo do relatório 
(de outubro de 2017 a novembro de 2018), as forças de segurança do governo realizaram 
incursões nas comunidades e aprisionaram centenas de cristãos em condições desumanas,
incluindo pequenos contêineres em calor escaldante.

Os cristãos estão sendo forçados a se juntar às forças armadas, e os protestantes, em 
particular, enfrentam sérios problemas com o acesso aos recursos da comunidade, 
especialmente os serviços sociais prestados pelo Estado. Essa extrema pressão e 
violência sancionada pelo Estado está forçando alguns cristãos a fugir da Eritreia – muitas 
vezes chamada de “Coréia do Norte da África” – e buscar asilo.

8. Iêmen
População: 28.915.000
Número de cristãos: Milhares (não especificado)
Principal crença: Islamismo

A guerra civil em curso no Iêmen criou uma das piores crises humanitárias na história 
recente, tornando a situação dos cristãos do país ainda mais difícil. O caos da guerra 
permitiu que grupos radicais assumissem o controle de algumas regiões do Iêmen e 
aumentassem a perseguição aos cristãos. Mesmo o culto privado é arriscado em algumas 
partes do país. Quem se converte para o cristianismo sofre violência adicional da família e 
sociedade.

9. Irã
População: 82.012.000
Número de cristãos: 800.000
Principal crença: Islamismo

A principal ameaça para os cristãos no Irã vem do próprio governo. O regime iraniano define 
o país como um estado islâmico baseado no islamismo xiita. Cristãos e outras minorias são 
vistos como uma distração indesejável para o ideal nacional. Por lei, um muçulmano que 
abandona a religião está  sujeito à pena de morte, embora não haja registros recentes de 
aplicação dessa lei por lá.

Muitos cristãos (especialmente convertidos) foram processados ​​e sentenciados a longos 
períodos de prisão. Outros ainda aguardam julgamento. Durante esse tempo, suas famílias 
enfrentam humilhação pública. Apesar da opressão estatal, a sociedade iraniana é muito 
menos fanática em relação às minorias religiosas do que as lideranças do governo.

10. Índia
População: 1.354.052.000
Número de cristãos: 65.061.000
Principal crença: Hinduísmo

Desde que o atual partido governante (nacionalista hindu) assumiu o poder em 2014, os 
ataques aos cristãos e outras minorias religiosas aumentaram. Os radicais hindus 
acreditam que podem atacar os cristãos sem consequências. Como resultado, os cristãos 
têm sido alvo constante de extremistas. A visão dos nacionalistas é que ser indiano é ser 
hindu, então qualquer outra fé – incluindo o cristianismo – é considerada não-indiana. 
Em algumas regiões do país, os convertidos ao cristianismo do hinduísmo experimentam 
extrema perseguição, discriminação e violência.

Fonte: Exame 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Os cuidados ao emitir uma opinião

O cuidado com a universalização, o cuidado com a tentativa de tudo explicar a partir de um argumento, de um pensamento contundente; o cuidado com os exageros teóricos, o cuidado com o enquadramento de caracteres amplos e distintos sob um mesmo princípio, tudo isso exige discernimento, estudo do aluno de Filosofia. 

Miguel Torga escreveu em 1941 o que segue: 


"... a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitetaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós. Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem".

Lúcio Packter - http://www.filosofia.com.br/estudo.php

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Médico Interno - Joanna de Ângelis

Joanna de ÂngelisCrêem muitos discípulos do Espiritualismo que todas as ocorrências desagradáveis da existência terrestre resultam de punições da Divindade ou de resgates impostos pelos erros do passado, próximo ou anterior.

Certamente a crença generalizada merece reparos, por não se ajustar totalmente à linguagem dos fatos.

O conceito sobre uma Divindade punitiva e cruel encontra-se defasado diante da nova compreensão do amor, que é recurso dinâmico a viger em todo o Universo.

Jamais a Consciência Cósmica se imiscuiria mediante atos de perversidade aplicados contra as frágeis criaturas humanas, ignorantes da sua realidade e destinação, ainda atravessando as áreas primárias do seu desenvolvimento.

Deus-Amor irradia-se em energia vitalizadora e reparadora, a tudo e a todos mantendo em equilíbrio, mesmo quando, aparentemente, algumas desconexões e desarranjos parecem perturbá-lo.
O processo de evolução dá-se através do desgaste como do aprimoramento, da doença e da saúde, da queda e do soerguimento...

Da mesma forma, há ocorrências que são conseqüências da invigilância, da irresponsabilidade, do desamor de cada ser. Nem sempre, portanto, as enfermidades podem ser consideradas como processos cármicos em mecanismos de reparação.

O organismo é excelente máquina constituída por equipamentos delicados, que são comandados pelo Espírito através do cérebro.

Quando o indivíduo tem a propensão para o pessimismo, o ressentimento, o desamor, cargas deletérias são elaboradas e atiradas nos mecanismos encarregados de preservar-lhe a organização somática, produzindo-lhe inúmeros males.

Igualmente, as disposições otimistas e afetuosas produzem energias refazentes, que recuperam os desarranjos momentâneos dos complexos órgãos que constituem a maquinaria fisiológica.

O corpo humano é laboratório de gigantescas possibilidades, sempre suscetível de autodesarranjar-se ou auto-recompor-se conforme as vibrações emitidas pela mente.

A mente representa-lhe o centro de controle que envia as mensagens mais diversas para todos os pontos da sua organização.

Uma emoção qualquer ocasiona descarga de adrenalina na corrente sangüínea, produzindo sensações equivalentes ao tipo de agente desencadeador.

Assim sendo, encefalinas e endorfinas são secretadas pelo cérebro sob estímulos próprios, produzindo imediatos efeitos no aparelho físico. Enzimas outras são produzidas com cargas positivas ou negativas, conforme a ordem mental, que contribuem para a manutenção da saúde ou a piora da enfermidade.

Auto-reparador, o aparelho circulatório, de imediato à agressão, reúne a fibrina dos vasos procurando elaborar coágulos-tampões que impedem a hemorragia e preservam a vida. Também ocorre o mesmo em referência às enfermidades - o câncer, a "aids", as paralisias, as enfermidades cardíacas e outras - que sob o comando mental correto vitalizam o sistema imunológico, produzindo diversas células com poder quimioterápico mediante o qual bombardeiam as células rebeldes e doentes, destruindo-as, da mesma forma isolando as portadoras de degenerescência e favorecendo as saudáveis, assim restaurando a saúde ou facultando maior sobrevida.

Afinal, o mais importante na área da saúde não é o tempo de vida - o número de anos que se frua - mas a intensidade, o bem-estar, a alegria e os objetivos vivenciados.

A morte é inevitável e constitui bênção em relação à experiência física; no entanto, a forma como cada qual se comporta no corpo é que se torna essencial.

Há, no corpo humano, um médico às ordens da mente, que o Espírito encarnado comanda, aguardando a diretriz para agir corretamente.

Desconsiderado, deixa de atuar, superado pelos fatores destrutivos, igualmente ínsitos na organização fisiológica, prontos à desgastante tarefa da doença e da degenerescência celular.

Esse médico interior pode e deve ser orientado pelo pensamento seguro, pelas disposições do ânimo equilibrado, pela esperança de vitória, pela irrestrita fé em Deus e na oração, que estimulam todas as células para o desempenho correto da finalidade que lhes diz respeito.

Joanna de Ângelis


(Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, em 22 de março de 1995, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador-BA, conforme publicado no "Reformador" de setembro de 1995)

Foto: Sor Juana Inés de la Cruz (1648-1695), Joanna de Āngelis - pintura de Aurora Parpal

sábado, 10 de novembro de 2018

O que significa Utopia?

Thomas More deu esse nome a uma espécie de romance filosófico em 1516, no qual relatava as condições de vida numa ilha desconhecida denominada Utopia, nela teriam sido abolidas a propriedade privada e a intolerância religiosa. Depois disso, esse termo passou a designar qualquer tentativa análoga, tanto anterior quanto posterior (como a República de Platão ou a Cidade do Sol de Campanella), mas também qualquer ideal político, social ou religioso de realização difícil ou impossível

Fonte:

Zygmunt Bauman - Modernidade Líquida - Entrevista na Globo News

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Nova obra do Papa Francisco chega ao Recife

Livro "Sabedoria das Idades" terá evento dia 13/11, terça, na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) às 14 horas
A maior instituição de ensino do estado de Pernambuco receberá no dia 13/11 (terça) os convidados para o lançamento da nova obra escrita pelo Papa Francisco. Intitulado Sabedoria das Idades, o livro contará com esse encontro especial para apresentar ao público o conteúdo da obra e também um fórum sobre a questão do envelhecimento. O evento começará às 14 horas e se extende até às 17 horas do mesmo dia, e terá a presença de alguns entrevistados que tiveram suas histórias impressas na edição brasileira do livro.
Sabedoria das Idades é o resultado da inspiração do Papa Francisco em esclarecer o papel vital dos avós e de outros idosos, contando com a sabedoria transformadora que eles têm a compartilhar. Idosos de mais de 30 países dividem sua sabedoria adquirida ao longo de anos de experiência. Todas as histórias são testemunhos do poder da fé, da perseverança, da resiliência humana e do amor. A obra foi apresentada mundialmente no último dia 23 de outubro, e Sua Santidade confere ao leitor um toque especial de fé, trabalho e esperança com suas sábias palavras de amor e paz, tão necessárias na atualidade.
Serviço do evento
Lançamento do livro Sabedoria das Idades em Recife
Data: 13/11 – Terça-feira
Horário: das 14 às 17 horas
Local: Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) - Auditório G1
Endereço: Rua do Principe, 526 - Boa Vista - Recife, PE
Personalidades presentes: Reitor Padre Pedro Rubens, Prof. José Artur de Brito, Padre Antônio Mota, índio Pankararu Genésio Manoel de Oliveira (idoso com história presente na obra), cacique Pankararu George de Vasconcelos
Ficha Técnica:
Título: Sabedoria das Idades
ISBN: 9788515045488
Autor: Papa Francisco
Páginas: 192
Preço: R$ 74,00
Sinopse: Um dia, enquanto rezava, Papa Francisco foi
inspirado a esclarecer o papel vital dos avós e de outros
idosos e a sabedoria transformadora que eles têm a
compartilhar. Sabedoria das idades é o resultado
dessa inspiração. Idosos de mais de 30 países
compartilham sua sabedoria adquirida ao longo de
anos de experiência. Todas as histórias são
testemunhos do poder da fé, da perseverança,
da resiliência humana e do amor.
O livro se organiza em torno a 5 eixos temáticos,
sobre os quais os idosos tecem seus comentários
baseados em suas próprias experiências de vida:
trabalho, luta, amor, morte e esperança são os temas
abordados. O próprio Papa Francisco se inclui na
classe de idoso a transmitir sabedoria. Além de ter
solicitado pessoalmente tal livro - como desdobramento
do projeto Querido Papa Francisco, livro no qual
perguntas de crianças do mundo todo são respondidas
pelo Pontífice - que pudesse dar voz e vez ao idosos,
indicou os temas a serem abordados e apresentou
seu pensamento sobre cada um deles, ora iniciando a
reflexão, ora comentando a reflexão dos entrevistados.
A Edição Brasileira conta, ainda, com uma sessão
especialmente denominada "Caderno Brasil" em que
apresenta todos os relatos dos brasileiros entrevistados.
Ainda assim, duas brasileiras foram selecionadas pela
Equipe do Projeto Mundial, tendo sido relato de uma
delas comentado pelo próprio Papa.
Sobre o autor: Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio)
nasceu em 17 de dezembro de 1936 em Buenos Aires,
Argentina. Foi eleito papa em 13 de março de 2013.
É o primeiro papa jesuíta, o primeiro papa das Américas,
o primeiro papa do hemisfério sul e o primeiro papa
não europeu em mais de mil e duzentos anos.
Por suas palavras e orações, deixa claro seu amor
genuíno pela humanidade, sua preocupação pelos
pobres e marginalizados e seu compromisso de
construir pontes entre pessoas de crenças diferentes.

domingo, 4 de novembro de 2018

Schiller e a música

A arte dos sons jamais deixava Schiller frio: ele a rejeitava ou adorava com intensidade. O poeta romântico foi um favorito tanto dos mestres do "lied" alemão, quanto dos grandes da ópera romântica italiana.

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Estátua de Friedrich Schiller em Berlim
Alegria, centelha divina,
filha do Eliseu!
Ébrios de fogo, ó Celestial,
adentramos teu santuário!
Com essas palavras da Ode à Alegria, aqui em tradução livre, inicia-se o famosíssimo coro final da 9ª sinfonia de Ludwig van Beethoven. Uma obra de história ambivalente: assim como Adolf Hitler a fazia executar em seus aniversários, foi com a Ode que Leonard Bernstein comemorou a queda do Muro de Berlim, em 10 de novembro de 1989:
Recebei um abraço, ó milhões,
este beijo vai para todo o mundo!
O poema de 1785 é talvez o mais famoso, porém apenas um dos inúmeros exemplos da profunda e intensa relação de Friedrich Schiller (1759–1805) com a música. Para o poeta nascido em Marbach, essa arte era um assunto de enorme seriedade, indo muito além da mera diversão ou de uma brincadeira com sons.
Arrebatamento, não cócegas
Em seu ensaio Sobre o patético, Schiller revela o que espera da música: que arrebate o ouvinte, que não lhe faça apenas "agradáveis cócegas". Por outro lado, esse arrebatamento deve obedecer a regras: "A música dos inovadores também parece apoiar-se apenas na sensualidade. Uma expressão de sensualidade chegando às raias do animalesco costuma revelar-se em todos os rostos, os olhos ébrios se embaçam, a boca aberta é desejo puro, um tremor voluptuoso toma os corpos. Afirmo que o gosto nobre e masculino exclui todas essas sensações da arte".
Tamanho engajamento explica a paixão de suas opiniões sobre determinadas obras e personagens da cena musical. O compositor e musicólogo Johann Friedrich Reichardt (1752–1814), Schiller desprezava, taxando-o de "gajo insuportavelmente intrometido e impertinente" e "inseto": "Realmente, deveríamos caçá-lo até a morte, senão ele não nos deixa em paz". Porém nem toda essa ojeriza pôde anular a admiração de Reichardt pelo poeta, ou impedi-lo de compor várias canções baseadas em textos schillerianos.
Certa vez, o representante do Sturm und Drang caracterizou uma apresentação do oratório A Criação, de Joseph Haydn, como "miscelânea sem caráter". Por outro lado, a ópera Ifigênia em Táuris, de Christoph Willibald Gluck, representou para Schiller um "prazer sem fim" e um paradigma do Classicismo musical. Em 1800, escreveria ao colega Johann Wolfgang Goethe: "Essa música é tão celestial que, mesmo no ensaio, entre as piadas e distrações dos cantores, ela me comove até as lágrimas".
Assassinato com acompanhamento musical
Wilhelm Tell
Ensaio de 'Guilherme Tell' no Nationaltheater de Weimar
Embora jamais se haja arriscado no campo dos libretos para ópera, a concepção teatral de Schiller é freqüentemente operística. Em 1797, em outra carta a Goethe, confessa: "Sempre tive uma certa confiança na ópera, que a tragédia se libertaria dela numa forma mais nobre, como dos coros do antigo festejo báquico".
Por exemplo, a primeira cena de Guilherme Tell abunda em rubricas musicais sugestivas: ainda com a cortina fechada, a público ouve uma melodia folclórica suíça e o "badalar harmonioso de sinos de gado", que se prolonga então pela cena adentro.
Sobe o pano e, ainda antecedendo o texto dramático propriamente dito, um aprendiz de pescador "canta da canoa", um pastor responde da montanha com uma canção, até que um caçador alpino finaliza a introdução musical, entoando duas estrofes. Schiller especifica até mesmo que as canções subseqüentes devem ser variações sobre a melodia suíça ouvida no início.
Mais tarde, na cena central da peça, a terceira do quarto ato, Schiller "compõe" um momento de complexa ironia dramático-musical, digna de um Puccini. Durante o conflito com Gessler, um cortejo nupcial se aproxima, por trás do palco: a alegria despreocupada oferece um contraponto eficiente para a crescente tensão no primeiro plano. A entrada do cortejo coincide com a flechada fatal de Tell: o tirano sangra até a morte, e a música alegre continua até que um dos homens de Gessler diz:
Está louco este povo, que acompanha o assassinato com música? Fazei-os calar.
Lieder e ópera
Além dos já mencionados Beethoven e Reichardt, praticamente nenhum dos grandes compositores românticos deixou de recorrer às palavras, idéias ou tramas teatrais de Schiller, como fonte de inspiração musical. Cite-se aqui apenas os lieder de Franz Schubert, Robert Schumann e Felix Mendelssohn ou o 12º poema sinfônico de Franz Liszt, baseado na poesia Os ideais.
A representação emocional de destinos humanos, plena de episódios dramáticos, tornou Schiller um favorito dos libretistas e compositores italianos. Entre 1813 e 1876 nada menos do que 19 de suas obras subiram aos palcos da Itália, transformadas em ópera.
Maria Stuart
Montagem teatral de 'Maria Stuart', direção Andrea Breth
Fugindo com a música
Schiller e a música: uma relação tumultuada e apaixonada. Para terminar, um episódio interessante de sua biografia, com significado quase alegórico: em setembro de 1782, Schiller foi obrigado a fugir da guarnição militar de Stuttgart, onde atuava como médico, escapando à perseguição pelo duque Carlos Eugênio.
Não só as práticas literárias eram proibidas entre militares, como alguns meses antes o duque punira o poeta com prisão, por este haver se afastado sem sua permissão, a fim de assistir em Mannheim uma récita de Os bandoleiros. Significativamente, Schiller escolheu como companheiro de fuga ninguém outro do que Andreas Streicher: seu grande amigo e... músico.
Talvez em parte devido à má qualidade das adaptações – superficiais e simplificadoras – a maioria dessas obras desapareceu completamente do repertório. Dentre as que sobreviveram temos a Maria Stuart de Gaetano Donizetti e o Guilherme Tell de Gioacchino Rossini. E, sobretudo, os quatro dramas de Giuseppe Verdi: Joana d'Arc, I masnadieri (baseada em Os bandoleiros), Luisa Miller ( Cabala e amor) e Dom Carlos. Delas, apenas esta última preserva em seu libreto algo da qualidade e dimensão poético-teatral do original.

sábado, 3 de novembro de 2018

Existe o destino? Somos levados pelo acaso? Ou construímos nossa destinação?

A Dialética da Liberdade

http://www.econtalk.org/david-boaz-p-j-orourke-and-george-will-on-the-state-of-liberty/

Recebemos através do Twitter o seguinte questionamento do internauta Bruce Casa Nova:

Querido, Marcelo, boa noite! Um forte abraço! Você acredita em destino? Acha que nós o construimos ou existe o acaso, o que já está destinado para nós?

É uma das indagações mais antigas da humanidade. Já somos destinados para algo? Somos levados pelo acaso, sem termos poder de escolha? Construimos nossa destinação?

O assunto nos sugere uma pesquisa sobre os filósofos que se debruçaram sobre o assunto e ao final, o pensamento que mais se assemelha o nosso.

No século I a.C. o filósofo Cícero nega totalmente o acaso e a fatalidade e enfatiza o livre-arbítrio do homem. Em sua obra Sobre a Adivinhação afirma: "não haver a ciência do futuro, e sustentar com todas as forças não existir, em absoluto, nem em Deus nem no homem, e não haver predição de coisas.

João Calvino, téologo francês que junto com o pastor suiço Guillherme Farel implementaram a Reforma Protestante na Suiça a partir de 1536. Para Calvino, os homens eram predestinados. Na sua visão, Deus tem um propósito particular para cada ser de Sua criação. Embora os homens estivessem predestinados à vida eterna ou à condenação, não sabiam de antemão seu destino.

Há um determinismo na Filosofia Budista pois seus fundamentos confiam ao ser humano as etapas para a iluminação. As suas ações influenciarão seu futuro. Obviamente que o seu livre-arbítrio deve ser utilizado para a preparação em um amanhã melhor. Se o amanhã pode ser melhor de acordo com os seus atos de hoje, é natural que haja uma necessidade no futuro de colhê-los. Todo o sofrimento que passamos hodiernamente, trata-se de erros cometidos no passado por nós mesmos.

Segundo o determinismo científico, tudo que existe tem uma causa. O mundo explicado pelo princípio do determinismo é o mundo da necessidade e não o da liberdade. Necessário significa aquilo que tem de ser e não pode deixar de ser. Nesse sentido, necessidade é o oposto de contingência, que significa o que pode ser de um jeito ou de outro.

Naturalmente que outros enfatizam a liberdade humana absoluta. Compreendendo que todos temos a escolha de de cidir e agir como se quer.

Aristóteles por exemplo, enaltece o "princípio de si mesmo" como o ato voluntário. Em "Ética a Nicômaco", afirma que tanto a virtude como o vício dependem da vontade do indivíduo.

Há uma refutação de Hannah Arendt em relação ao estagirita, em que ela ressalta que a liberdade naquele período da história estava restrita ao campo político. Mulheres, crianças, escravos e metecos não possuíam a mesma liberdade.

Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino utilizam o conceito de livre-arbítrio como faculdade da razão e da vontade para escolher um caminho. O bem ou o mal.

René Descartes também se debruça sobre o assunto e e defende que o ser humano deva sempre dominar a si mesmo. Mesmo que as paixões sejam boas em si, cabe à razão averiguar de que forma utlizá-las.

Em meados do século XX, Jean-Paul Sartre em sua filosofia existencialista afirma que o ser está irremediavelmente "condenado a ser livre". Tanto que um de seus principais pensamentos é "A existência precede a essência". O homem vive e vai construindo a sua própria identidade.

Pesquisando no Espiritismo, bússola de luz para todos nós, encontramos algumas explicações bem satisfatórias para a nossa humilde compreesão de vida.

Na obra "A Caminho da Luz", psicografada por Chico Xavier através do Espírito Emanuel, encontramos a seguinte afirmação:

- O determinismo do amor e do bem é a lei de todo o Universo e a alma humana emerge de todas as catástrofes em busca de uma vida melhor. 

A frase é muito clara. Existe um determinismo. Para o amor e o bem. Entendemos que, apesar de utilizarmos o livre-arbítrio em nossas vidas, em um dado momento não termos como fugir de nossa destinação. Naturalmente, em nosso plano ainda existe o mal. E somos responsáveis por nossos atos.
As vidas sucessivas terão um papel essencial na explicação do resgate desse mal.

O filósofo espírita José Herculano Pires entende que há uma dialética da liberdade. Há um determinismo subjetivo, que é a vontade do homem e um determinismo objetivo, que é o das condições de sua própria existência. Da oposição constante dessas duas vontades, resulta a liberdade-relativa da sua possibilidade e ação.

Na questão 844 de "O Livro dos Espíritos" encontramos a seguinte explanação:

- O homem tem liberdade de ação a partir do momento que tem a vontade de fazê-lo. No início da vida, a liberdade é quase nula; ela se desenvolve e muda de objeto com o desenvolvimento das faculdades. A criança, por ter pensamentos relacionados com as necessidades de sua idade, aplica seu livre-arbítrio às coisas que lhe são necessárias.

Em nosso entendimento, devemos utilizar o livre-arbítrio como instrumento para nossa evolução. Quanto maior a nossa consciência, menos o determinismo nos cerceará os movimentos. Pois o estaremos aceitando de braços abertos. Para nossa liberdade maior mais adiante.

Fontes:

Revista das Religiões - Edição 5 - Janeiro 2004 - Por Estela Silva.
Filosofando : introdução à filosofia/ Maria Lúcia de Arruda Aranha, Maria Helena Pires Martins. - 3. ed. revista. São Paulo - SP. Moderna, 2003.
A CAMINHO DA LUZ História da civilização à Luz do Espiritismo. Ditada pelo Espírito: Emmanuel. Psicografada por: Francisco Cândido Xavier Publicação original em 1939 pela: Editora FEB Federação Espírita Brasileira www.febnet.org.br . Versão digital atualizada em setembro, 2016
O Livro dos Espíritos/Allan Kardec. Tradução Matheus R. de Camargo. Capivari-SP. Editora EME, 7ª edição, agosto/2006.
http://www.cacp.org.br/a-genese-da-predestinacao-na-historia-da-teologia/
http://www.universocatolico.com.br/index.php?/a-doutrina-da-predestinacao.html