sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O rosto de Janus

 

A sociedade vive momentos críticos não só em nível nacional, mas também mundial. Ao olharmos para os mais diversos países deparamo-nos com o caos à beira de sua institucionalização.

Ao mesmo tempo em que novos tempos vêm refrescar a face de muitos, outros tantos são obrigados a sobreviver sob o estigma do medo e da insegurança. Contradições de um mundo em crise. E, partindo do geral para o particular, deparamo-nos com o ser humano, permitam-me a expressão “crisificado”. Um ser humano acrisolado que se perde em si, para si e, consequentemente, perde-se para os outros.

Contudo, a crise significa oportunidade de um novo começo, de uma reconstrução. A crise traz em si, propostas que necessitam de respostas. Penso que a resposta é dada a partir de um novo ângulo, ou ainda melhor, por um novo agente social e de poder transformador. Refiro-me aos mais fragilizados e que vivem nas periferias como se fossem sobrantes. Pessoas que foram destituídas das qualidades e dos valores inerentes aos seres humanos. É a partir, justamente, deles que a sociedade deveria agir e falar. Pois é no vulnerável que se encontra a situação crítica por excelência e, portanto, é a partir dele que o “desacrisolamento” dos povos acontecerá.

Desta forma, podemos dizer que toda situação crítica ou de crise tem o “rosto de Janus”, o deus romano da dupla face: é tempo de juízo e, simultaneamente, da oportunidade de um novo começo, de renovar o que foi usado, esgotado e que anda de forma débil. Em momento de crise, as mulheres e homens, marginalizados e destituídos de seus direitos, têm a possibilidade de imprimir um novo sentido à sua história e à do mundo.

Porém, é na contradição dos fenômenos e na duplicidade dos caminhos que ocorre a solidariedade com os povos oprimidos e a posterior superação dos obstáculos que impedem os caminhos da história. Assim, deparamo-nos com um ato convocatório sem precedentes e que chega às raias do imperativo categórico a fim de nos unirmos com aqueles que detém a chave da história. Somos convidados a caminhar em seus passos e a viver suas histórias como se fossem as nossas.

É preciso lembrar que é possível e necessário escrever a história a partir dos olhares das vítimas. Olhares que podem muito bem ser encontrados no Novo Testamento: “Senhor quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te visitar? Então Jesus lhes responderá: eu garanto a vocês, todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mateus 25,37-40).




Autor: Luiz Alexandre Solano Rossi é professor da graduação em Teologia Interconfessional do Centro Universitário Internacional Uninter.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

“O futuro imprevisível está em gestação hoje”: Edgar Morin lança reflexões sobre a pandemia


Em “É hora de mudarmos de via – As lições do Coronavírus”, o maior pensador em atividade dá o seu parecer sobre o principal assunto do momento, um livro escrito em parceria com sua esposa, a socióloga Sabah Abouessalam, durante confinamento no apartamento onde vivem em Paris. Para Morin, o futuro em jogo está em construção neste momento e muitas vias se apresentam: qual escolheremos? Livro chega às livrarias nesta semana.

 

 

É HORA DE MUDARMOS DE VIA – AS LIÇÕES DO CORONAVÍRUS

 

Edgar Morin

 

 

Páginas: 98

 

 

Bertrand Brasil | Grupo Editorial Record

 

 


 

 

 


 

 

Em pouco menos de cem páginas, o filósofo e pensador francês Edgar Morin imprime em “É hora de mudarmos de via”, reflexões e lições acerca da pandemia do Coronavírus, crise que paralisou a vida econômica e social em 177 países.  Quando tudo começou, ainda em 2019, em Wuhan, na China, o ocidente passou a olhar com curiosidade ao que acontecia "do outro lado do mundo”. Ares de distopia tomaram conta do noticiário. Na literatura, as vendas de “A Peste”, de Camus, dispararam. Estava instalada a realidade que todos vivem até hoje: o isolamento, a paralisação das atividades econômicas, a contagem de mortos e infectados, a crise econômica e sanitária, e habituar-se a lidar com termos como curva, primeira e segunda ondas, imunidade de rebanho... Uma realidade transformada.


A partir disso, muitas são as perguntas que surgem: e depois? Como será o pós-pandemia? Teremos aprendido algo? O que a Pandemia pode nos ensinar? São sobre questões como essas, dentre outras investigações políticas e sociais, que Edgar Morin, em parceria com Sabah Abouessalam, socióloga e urbanista, esposa do escritor, isolados em seu apartamento em Montpellier, Paris, refletem neste novo livro, pequeno nas páginas, mas enorme na potência do que traz à tona em provocações e uma visão de mundo otimista, que aposta na humanidade como solução de seu futuro. É verdade que houve muitas pandemias na história, mas a novidade radical do Covid-19 está no fato de ele dar origem a uma megacrise. Nossa fragilidade estava esquecida; nossa precariedade, ocultada. Nunca estivemos tão fechados fisicamente no confinamento e nunca tão abertos para o destino terrestre.


É este destino que interessa a Morin em suas reflexões. Para o pensador, o futuro imprevisível está em construção neste momento e muitas vias se apresentam: qual escolheremos? O pós-coronavírus é tão preocupante quanto a própria crise. Muitos comungam a certeza de que o mundo de amanhã não será o mesmo de ontem. As apostas do francês, no entanto, dão o tom de uma via possível e otimista, que transformaria nossa realidade e nos conduziria a um futuro melhor do que o presente a que temos acesso no hoje: Morin aposta na regeneração da política, na proteção do planeta e na humanização da sociedade: é hora de mudarmos de via.

 

Sobre o autor


Edgar Morin nasceu em Paris em 1921. Filho de judeus espanhóis, sua adolescência foi marcada pela ascensão do nazismo, pelos processos de Moscou e pela marcha em direção à guerra. Aos vinte, durante a ocupação de Paris pelos nazistas, adere ao Partido Comunista – do qual seria expulso em 1951 por suas posições antistalinistas – e à Resistência Francesa. Após a guerra, entra para o Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), o maior órgão público de pesquisa científica da França e uma das mais importantes instituições de pesquisa do mundo. Formado em Direito, História e Geografia, é autor de inúmeras obras de Filosofia e Sociologia, como A cabeça bem-feita, Ciência com consciência e Conhecimento, ignorância, mistério, entre outros publicados pela Bertrand Brasil.


Conceito certo em tempos de pandemia: resiliente

Como me comporto diante de situações de mudanças e desafios? Diante de situações adversas como pressões, stress, alterações bruscas de direção? Consigo ser resistente às diversas transformações que ocorrem diariamente, não perdendo o foco nos meus objetivos e metas que estabeleci para minha vida?

Ser perseverante e persistente, e ao mesmo tempo flexível, mesmo diante das dificuldades são características de uma pessoa resiliente. Mas afinal de contas, o que significa esse termo? Na física dos materiais, a resiliência é uma propriedade que indica a proporção em que um material é resistente e suscetível de retornar à sua forma original após ser submetido a uma grande pressão. Seria sua capacidade elástica, de retornar ao seu estado original. É lógico que todo material sofre alguma deformação quando é submetido à grandes impactos.

Resiliência, do latim resilire, indica uma capacidade inata de voltar ao estado original. Humanamente, poderíamos aplicar resiliência à capacidade de alguém se adaptar a circunstâncias contrárias e adversas. Um conceito que era somente aplicado à propriedade de materiais, passou a ser utilizado pela psicologia a fim de compreender como os seres humanos reagem em situações de grandes demandas de esforço, dedicação e crises, as quais demandam maior esforço na adaptação e realização de atividades. Nem todos, infelizmente, possuem atributos intrínsecos necessários para reagir positivamente a pressões externas, mas é possível desenvolver fatores emocionais e psicológicos que favoreçam essa característica individualmente.

O primeiro aspecto a se pensar é que nem todas as crises são totalmente ruins. Crises e problemas ocorrem com todos, independentemente de cor, raça, gênero, posição social. Todos passamos por situações de frustração, tristezas, perdas, desafios. Precisamos compreender que esses momentos são inevitáveis para qualquer ser humano e que não somos os primeiros e nem seremos os únicos a ser desafiados a enfrentar momentos difíceis, mas a forma como enfrentamos esses momentos é que nos tornará mais fortes e nos conduzirá ao um crescimento, ou simplesmente perderemos a oportunidade de crescermos e aprendermos lições valiosas. Poderíamos citar Leonardo Boff, “Crises são oportunidades de crescimento”, ou ainda Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérolas”. Precisamos refletir sobre o momento, depurar o que está acontecendo, aceitar o que não temos como mudar e agir naquilo que podemos.

Crises são oportunidades para o crescimento pessoal, para a fé, a transcendentalidade, a inovação, a mudança. Enfrentar o sofrimento é resgatar algo da essência humana, é compreender que a condição humana se faz a partir não somente das alegrias, mas também dos momentos difíceis e desafiadores. Sofrimento e crises não são doenças a serem tratadas simplesmente com medicamentos químicos.

Há sensação de perda, mas é preciso haver também a limpeza da alma, da mente, das emoções. Não é possível ficar preso ao passado, e muito menos olhar apenas para o próprio interior, mas olhar para frente com olhos francos, positivos e perspicazes. O que posso fazer? O que é possível fazer nesse momento. Como agir, como atuar na realidade afeta não somente a si próprio, mas também a todos que estão ao redor e sofrem nossa influência. Por isso é importante primeiro uma reflexão, deixar a sujeita baixar, a água dos pensamentos ficar mais límpida e aí então, atuar com coragem e ousadia, sem medo de errar. E se errar, se reinventar e persistir. Toda crise é uma oportunidade de saltar para algo novo e melhor. Traz sobretudo esperança, mesmo que a princípio não consigamos visualizá-la.

Ser resiliente é enfrentar crises, maiores ou menores diariamente, ao longo da vida, é se vergar diante de uma tempestade ou furacão como o bambu, mas voltar à normalidade assim que possível sem ter, no entanto, perdido suas raízes e seu referencial. Reagir não apenas exteriormente através de palavras e atos vultuosos, mas principalmente, numa mudança interna, produzida através de reflexões sérias, e assim agir de forma prática e eficaz naquilo que é possível, com esperança e perseverança no futuro.

Autora: Sandra Morais Ribeiro dos Santos é professora da Área de Humanidades da Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter.